Grande História

A Justiça cerca Bolsonaro e aliados por ao menos seis frentes

30.04.2020 - Porto Alegre/RS - Jair Bolsonaro durante visita ao Centro de Operações de combate ao COVID-19 do Comando Militar do Sul. Foto: Marcos Corrêa/PR

A sabotagem ao confinamento, o colo de Bolsonaro, o ataque a Moraes, o cerco do Supremo, o exame oculto, e muito mais.

Só hoje noticiaram que, ainda em 27 de março, Jair Bolsonaro estimulou uma carreata contra a quarentena em Manaus, primeira cidade brasileira onde o sistema de saúde entraria em colapso por causa da covid-19. Na época, a doença já havia feito 321 vítimas fatais no Brasil. De lá para cá, também chamou atenção a situação de Blumenau. Atendendo a determinação feita 9 dias antes por Carlos Moisés, governador eleito pelo mesmo PSL que já abrigou o presidente da República, os shoppings reabriram no dia 22 de abril. Seis dias depois, crescia em 98% os casos de novo coronavírus na cidade catarinense.

Em 17 de abril, Bolsonaro disse que assumiria o risco da reabertura do comércio. Afinal, se a situação se agravasse, cairia “no colo” dele. Ontem, enquanto os brasileiros ainda digeriam os mais de 5 mil óbitos confirmados até então, Bolsonaro garantia que “não vão botar no meu colo uma conta que não é minha“.

Mas é

Como essa coluna explicou ontem, a conta já está no colo do presidente. Do contrário, o STF não estaria avançando com tanta sede. Luiz Fux encaminhou à Procuradoria-geral da República uma notícia-crime contra desvio de recursos públicos que teria sido praticado pelo ainda deputado federal entre 2009 e 2011. Celso de Mello arbitra as denúncias feitas por Sergio Moro e o episódio de racismo protagonizado por Abraham Weintraub. Um dia após ouvir rasgados elogios do pai de Eduardo Bolsonaro, Gilmar Mendes negou ao Zero Três a ação que tentava impedir a prorrogação da CPMI das Fake News. E, em sintonia com o desafeto Luís Roberto Barroso, saiu em defesa de Alexandre de Moraes, alvo de ataques do presidente na manhã de hoje.

O único de Temer

A pedido de Dias Toffoli, Moraes toca desde março de 2019 um polêmico inquérito sobre o uso de notícias falsas para ataques políticos nas redes sociais. Recentemente, foi noticiado que, como esperado, a apuração chegou a Carlos Bolsonaro. A decisão de peitar Moro e trocar o comando da PF por Alexandre Ramagem nasce do temor de o chamado “gabinete do ódio” ser pego. Como Moraes anulou a nomeação do indicado de Carluxo, Bolsonaro amanheceu a quinta-feira direcionando o verbo ao único ministro indicado por Michel Temer ao Supremo.

Quem manda?

O presidente se disse vítima de uma “canetada” política. Garantiu que não irá se tornar um “presidente pato manco, refém de decisões monocráticas“. E, contrariando a própria AGU –e a lógica, uma vez que ainda ontem tornou sem efeito a nomeação, devolvendo Ramagem à ABIN–, prometeu recorrer da decisão insistindo mais uma vez: “quem manda sou eu“.

Violentado?

No flanco que hoje mais rendeu manchetes, a AGU garantiu que Bolsonaro testou negativo para covid-19, mas não mostrou o exame que comprova a veracidade da afirmação. A juíza federal Ana Lúcia Petri Betto não aceitou a resposta e deu mais 48 horas para a entrega do laudo. O presidente, que até uma recheada bolsa de colostomia exibia quando hospitalizado, aguardava o recurso reclamando que irá se sentirviolentado” caso precise apresentar a prova. O Estadão, no entanto, deve pedir uma apuração de descumprimento de ordem judicial antes disso. Com a água na canela, Bolsonaro já “fraqueja” na narrativa alegando que “talvez já tenha pegado esse vírus no passado e nem senti”.

Em busca da narrativa perfeita

No desespero por uma narrativa que vingue, Bolsonaro atira para todos os lados. Ontem, sem citar qualquer fonte, acusou a Organização Mundial de Saúde de incentivar masturbação e homossexualidade em crianças. As provas de que os governadores estariam inflando números para uso político, a Presidência da República admitiu não possuir. Até o quarto filho, ainda sem cargo público, usou as redes sociais para insistir que a doença que já matou quase 6 mil brasileiros não passava de “gripezinha“.

Popularidade inflada

O contexto pede uma atenção maior às pesquisas de popularidade. Pelo Datafolha mais recente, as avaliações positivas de Bolsonaro estão em 33%, com as negativas em 5 pontos percentuais acima. A medição difere em muito dos levantamentos feitos pelo Jota (20% a 48% respectivamente) e Atlas Político (21% a 49%). Este último tem alertado sobre um viés amostral no levantamento telefônico do Datafolha de 3 de abril. Enquanto o atual presidente venceu a disputa eleitoral em 2018 com 55% dos votos válidos, uma parcela de 63% dos entrevistados da pesquisa se dizia eleitor dele. O Atlas notou ainda que, pelos levantamentos anteriores, a consulta a um menor número de eleitores de Fernando Haddad implicava em uma maior aprovação do presidente da República. E que, nos levantamentos mais recentes, a informação vem sendo sonegada pelo instituto.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Agência Brasil, Agência Sportlight, BBC, BR Político, CNN Brasil, Correio Braziliense, El País, Estadão, Estado de Minas, Exame, Folha de S.Paulo, G1, Jota, O Globo, O Tempo, The Intercept, UOL e Valor Econômico.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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