Grande História

Mais da metade do país concorda com o impeachment de Bolsonaro

24.04.2020 - Brasília/DF - Pronunciamento do Presidente da República, Jair Bolsonaro. Foto: Carolina Antunes/PR

O filhotismo nomeando, o cerco a Flávio, a “mera coincidência”, os gols contra de Zambelli, as derrotas de Bolsonaro, e muito mais.

Para o comando da Polícia Federal, Jair Bolsonaro escolheu Alexandre Ramagem, nome de confiança que, com Carlos Bolsonaro, havia tentado montar uma espécie de “Abin paralela” dentro do Palácio do Planalto. Para a vaga que Sergio Moro deixou livre no Ministério da Justiça, o presidente sondou Ives Gandra Filho, e chegou a se decidir Jorge Oliveira, que atuava como secretário geral da Presidência da República, mas num passado recente chefiou o gabinete de Eduardo Bolsonaro. Contudo, vem prometendo surpresas, e o nome de André Mendonça, atual advogado-geral da União, corre por fora como alternativa.

Apesar de ambos reclamarem do inquérito tocado no STF por Alexandre de Moraes, nenhum filho parece estar mais complicado do que Flávio Bolsonaro. Documentos sigilosos mostram que o Zero Um, com ajuda de Fabrício Queiroz, confiscava 40% dos salários do próprio gabinete. Mais do que isso, repassava os ganhos para Adriano da Nóbrega, miliciano que erguia prédios irregulares nas favelas cariocas. Mais do que isso, o então deputado estadual ficava com parte dos lucros das edificações clandestinas. Mais do que isso, a descoberta foi feita durante a apuração da morte de Marielle Franco, a vereadora carioca que morreu quando combatia justamente a grilagem tocada por milícias da Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Queima de arquivo

Adriano da Nóbrega foi morto em fevereiro após um ano foragido. Já colheram indícios de que políticos, magistrados, policiais, agentes públicos e empresários garantiram apoio logístico e financeiro à fuga do miliciano. Em meio à toda a confusão recente com a troca do comando da PF, o advogado de Flávio Bolsonaro se encontrou com o presidente da República. Alegou que tudo não passou de “mera coincidência“. Mas é também por “mera coincidência” que este encontro é citado neste ponto do texto.

Satisfações

Questionado pelo gritante favorecimento aos filhos contrangidos por apurações da PF, Jair Bolsonaro respondeu apenas “e daí?“. No entanto, à Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, que não costuma tolerar corrupção, o presidente brasileiro precisará elaborar uma resposta melhor sob pena de prejudicar o mercado que o apadrinhou e segue servindo de sustentação.

Fritura

Ainda na sexta-feira, Moro alertou aos mais próximos que viraria alvo de ataques. E virou. Primeiramente, um passivo-agressivo do próprio Bolsonaro, que lembrou aos seguidores que havia apoiado o então ministro quando do estouro da Vaza Jato. Mas, claro, ignorou que se calara sobre o assunto até ter certeza de que os vazamentos contra a Lava Jato não tinham prejudicado a imagem da principal vítima dos hackers de Araraquara.

Pela culatra

Mas o tiro saiu pela culatra. Evidenciando que as citações não eram orgânicas, mais de 70 mil mensagens publicadas nesta segunda-feira no Twitter garantiam apoio a “BolsoLnaro”. Sim, todas com o mesmo erro de grafia. Na véspera, o presidente também tentou desmerecer uma matéria do Fantástico sobre a demissão de Moro, mas chamou mais atenção pela briga do “youtuber” com o wi-fi do Palácio da Alvorada.

Ele sangra

A demissão de Moro fez com que nas redes sociais, pela primeira vez desde 2017, Jair Bolsonaro visse o total de seguidores cair. Até o ex-ministro clicou no unfollow. Mas no Twitter, onde bots costumam atuar para manipular debates, o presidente curiosamente ganhou mais seguidores do que a média recente.

Placar desfavorável

Ao todo, mais de 90% das menções ao pronunciamento em que tentou responder às acusações foram negativas. Segundo levantamento da FGV, os apoiadores do governo não publicaram nem 10% das mensagens que comentavam o caso no Twitter. De acordo com levantamento da XP Investimentos, dois terços dos brasileiros veem a queda de Moro como um aspecto negativo do governo.

Quem precisa de inimigos?

Exposta pelas provas que Moro entregou ao Jornal Nacional, Carla Zambelli tentou reverter o estrago, mas findou complicando ainda mais a vida de Bolsonaro. Em tentativa de provar que o ex-ministro da Justiça agia com interesse em vaga do STF, a deputada federal só conseguiu provar a pressão que fazia ela própria para que o padrinho de casamento perseguisse Rodrigo Maia. Ao tentar provar que o presidente não interferia no trabalho da PF, findou admitindo que o presidente interferia no trabalho da PF, ainda que “apenas” em benefício próprio. Zambelli associou Alexandre de Moraes, o membro do STF que cuida do inquérito que atingiu Carlos Bolsonaro, de ter ligações com o PCC. De quebra, disse que queria abraçar alguém com covid-19 para se infectar logo.

Reação

O Movimento Brasil Livre vem preparando ações no STF contra as nomeações de Ramagem e Oliveira aos comando da PF e Ministério da Justiça respectivamente. Mas o monitoramento do Google Trends mostra um interesse inédito na gestão em torno de um tema ainda mais quente. Aquele que começa com a letra I.

Impeachment

No dia da queda de Moro, cresceu 140% em relação à véspera a menção ao termo no Twitter. De acordo com o Atlas Político, a concordância com o impeachment de Bolsonaro saltou para 54% contra apenas 37% que dele discordam. Na oposição, enquanto membros de PDT, PSB e Rede já apresentaram alguns dos quase 30 pedidos protocolados, o PT, seguindo orientação de Lula, escolheu esperar. O ex-presidente está em sintonia com Rodrigo Maia, que segue pregando paciência. O presidente da Câmara não diz isso, mas há chance de o afastamento de Bolsonaro não vir por graça do legislativo, e sim pelo trabalho realizado no judiciário. Em especial, no Supremo.

Aposentou a gaveta?

Celso de Mello deve autorizar a abertura de inquérito solicitada por Augusto Aras para apurar as denúncias feitas por Moro. Na sequência, o PGR deve pedir uma perícia no aparelho celular do ex-ministro. Em mais um gesto que parece aposentar o apelido de “engavetador-geral da República”, Aras extinguiu a Secretaria de Direitos Humanos, impedindo que uma eventual federalização do caso Marielle caia no colo de Ailton Benedito, procurador que nas redes sociais não se esforça para esconder o próprio bolsolavismo.

Desenhou

Curtas

  1. Não tem vácuo no poder – Com o isolamento social, o Palácio da Alvorada, onde mora Jair Bolsonaro, ficou cheio de ratos.
  2. Outro bicho – No México, no entanto, uma série da Netflix usa o termo Bolsonaro como sinônimo para burro.
  3. A próxima vítima – Como a ideia é Bolsonaro “se vingar” de cada ministro que apoiou Luiz Henrique Mandetta, há a expectativa de que Paulo Guedes seja o próximo a cair.
  4. Minorias – Enquanto o país foca a atenção na covid-19, o governo Bolsonaro segue agindo contra minorias, com a Funai facilitando a invasão de terras indígenas.
  5. Meio Ambiente – Enquanto o país foca a atenção na covid-19, Ricardo Salles aproveitou para anistiar proprietários rurais que desmataram no bioma mais devastado do país.
  6. Zicou – Ainda no sábado, o plenário virtual do STF formou maioria contra uma ação que pedia a legalização do aborto para grávidas infectadas pelo zika vírus.
  7. Morreu, mas passa bem – Enquanto alguns veículos reportaram o “estado vegetativo” e até a morte de Kim Jong-un, a Coreia do Sul garantiu que o vizinho do Norte estava bem.
  8. O jogo virou – Seis meses após Jair Bolsonaro ameaçar isolar a nação vizinha caso Maurício Macri não fosse reeleito, a Argentina desistiu de fazer negociações comerciais com o Mercosul para se focar no combate à covid-19.
  9. Ele avisou – Em 2016, Ricky Gervais alertou que os avisos de “não beba” em garrafas de alvejante eram um sinal claro de que Donald Trump poderia vir a presidir os Estados Unidos.
  10. Ele acertou – Agora, após o presidente americano sugerir injeção de desinfetante contra o novo coronavírus, a cidade de Nova York viu mais que dobrar o total de chamadas de emergência por ingestão de desinfetante caseiro.

Um Pio

Abre Aspas

“Tenho visto uma campanha de fake News nas redes sociais e em grupos de whatsapp para me desqualificar. Não me preocupo; já passei por isso durante e depois da Lava Jato. Verdade acima de tudo. Fazer a coisa certa acima de todos.”

Sergio Moro, ex-ministro da Justiça, tardiamente descobrindo do que é capaz o governo do qual fez parte por mais de ano.

Vale Seguir

Por pior que seja o clima, Madeleine Lacsko consegue estampar um sorriso no rosto, e isso para quem vive de jornalismo é missão quase impossível.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BBC, BR Político, CNN Brasil, El País, Época, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, Jovem Pan, O Antagonista, O Globo, Poder 360, The Intercept, TMZ, UOL, Valor Econômico e Veja.

24.04.2020 - Brasília/DF - Pronunciamento do Presidente da República, Jair Bolsonaro. Foto: Carolina Antunes/PR

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 24 de abril de 2020 pela fotógrafa Carolina Antunes, da Presidência da República, em Brasília, Distrito Federal. Nela, Jair Bolsonaro, acompanhado dos ministros do Governo Federal, se pronuncia após a demissão do ministro Sergio Moro.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque, apesar de toda a raiva, os ratos continuam no Palácio.

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