Grande História

Ministério da Justiça: sai aliado da Lava Jato, entra aliado de Dias Toffoli

28.04.2020 - Brasília/DF Foto: Jose Cruz/Agencia Brasil

O recuo do PT, a escolha de Mendonça, a reprise do acordão, o homem de Carluxo, o preço do acordo, e muito mais

Na quinta, dia 23, o perfil oficial de Lula publicou no Twitter que “é preciso começar o Fora Bolsonaro“. Contudo, no domingo, veio a notícia de que o ex-presidente “participou de uma reunião com a executiva nacional do partido na qual ficou decidido que a legenda não entraria isoladamente com um pedido de impeachment“. Também no domingo, argumentando que se tratava de “mera coincidência“, o advogado de Flávio Bolsonaro se encontrou com Jair Bolsonaro, mas negou que estivesse interferindo na definição do novo ministro da Justiça.

Na segunda, o presidente da República decidiu-se por André Mendonça, um dos nomes mais próximos a Dias Toffoli. Antes, o advogado-geral da União havia se reunido com Augusto Aras, a quem cabe investigar o presidente da República, Braga Netto, chefe da Casa “Militar”, e com o próprio Bolsonaro – que ao término do dia viraria alvo de inquérito solicitado pela PGR para apurar as acusações feitas por Sergio Moro.

Déjà–vu

As principais estrelas desse elenco já dividiram a cena em 2019. E em enredo semelhante. Em maio, a oposição levou às ruas gigantescos protestos contra o presidente. Mas Lula e Toffoli desautorizaram o PT a articular qualquer espécie de “fora, Bolsonaro”. Na ocasião, a conversa do presidente da República foi com o presidente do STF. Se, antes, havia a promessa de vaga no Supremo para Moro, ela passou a ser feita para alguém “terrivelmente evangélico“, no caso, André Mendonça. Semanas depois, Toffoli suspendeu a investigação que atingia Flávio Bolsonaro, levando a família às lágrimas, segundo o próprio advogado. Após seis meses de muita tabelinha entre os citados, Lula foi solto.

O homem de Carluxo

Gilmar Mendes curtiu a escolha de Mendonça para o Ministério da Justiça, e a de José Levi, de quem é próximo, para a Advocacia-geral da União. Mas nada comentou sobre a de Alexandre Ramagem, que comandará a Polícia Federal. O homem de confiança de Carlos Bolsonaro era visto na Lava Jato como um petista corrupto que estaria disposto a sabotar a operação. Hoje, o deputado federal Marcelo Freixo protocolou uma ação popular para que Ramagem seja impedido de tomar posse. Um pedido semelhante dos senadores Randolfe Rodrigues e Fabiano Contarato foi rejeitado pela Justiça Federal sob a justificativa de que partia de alegações vagas.

O preço

Um rearranjo do tipo não nasceria sem que a situação ficasse melhor para ambas as partes. Já se sabe que o Ministério da Justiça, que estava aos cuidados de um assumido defensor da Lava Jato, foi entregue a um aliado de notórios críticos da operação. Do outro lado, Bolsonaro segue com medo de investigações que cercam a própria família. A experiência ensina, contudo, que é uma questão de tempo até que surjam manchetes sobre suspensões e engavetamentos de tais apurações.

Goleada

Se o impeachment de Dilma nasceu com 103 congressistas que nas redes sociais se diziam a favor do afastamento, contra 64 que se diziam contra, Bolsonaro já apanha de um placar bem mais elástico: 143 a 23. Lá fora, o Financial Times observou em editorial que o “Trump dos trópicos” está em processo de autodestruição. Aqui dentro, o Estadão conseguiu na Justiça o direito de obter o laudo com o exame do presidente para covid-19, e conferir se diz a verdade quando garante que não adoeceu. É difícil crer, todavia, que Brasília não se esforçará para reverter a decisão dentro das 48 horas de prazo para a apresentação do resultado.

Esfriou

Pelo arrefecimento da crise, soa uma vitória de Bolsonaro. Mas, nessa negociação, o lucro inicial é do centrão: ganhou cargos, enfraqueceu a Lava Jato e empurrou o impeachment para um momento em que a covid-19 já terá desgastado ainda mais a imagem do presidente. Resta saber se “combinou com os russos”. Pois é difícil crer que o presidente mais irresponsável que este país já elegeu irá se comportar até lá.

Desenhou

Curtas

  1. Não quer – Antes do impeachment, o PT quer discutir uma PEC que obriga a convocação de eleições diretas numa eventual queda de Bolsonaro – o que, dada a dificuldade, é uma forma de marcar posição com a militância sem resolver nada.
  2. Ele teme – Além do STF, Jair Bolsonaro não esconde o temor que sente de servidores, ou não teria por três vezes tentando interromper as críticas que Paulo Guedes fazia ao funcionalismo público.
  3. Linchamento virtual – Por um veículo governista, vazaram um áudio em que Joice Hasselmann aparenta estimular a criação de perfis falsos nas redes sociais – e Bolsonaro nem fez questão de esconder que o conteúdo antes havia passado pela mão do presidente.
  4. Robôs do Bolsonaro – Ainda nas redes, mais da metade das manifestações governistas são publicadas por bots – que já andam chamando atenção até mesmo de um monitoramento internacional.
  5. Confinamento – Como observado em colunas passadas, Bolsonaro quer viabilizar a volta de torneios futebolísticos, mas precisa antes combinar com os hospitais de campanha montados nas principais arenas brasileiras.
  6. Novo recorde – Por outro lado, ao confirmar 474 mortes nas últimas 24 horas, o Brasil quebrou o próprio recorde diário, e ultrapassou a China em vítimas fatais de covid-19.
  7. É só narrativa – Mas o desemprego em massa que justificaria o fim do confinamento tão sonhado por Bolsonaro simplesmente ainda não ocorreu.
  8. Neurológico – Nos Estados Unidos, estão descobrindo que, mesmo em pacientes jovens e assintomáticos, a covid-19 pode matar provocando um AVC.
  9. No ar – Os cientistas descobriam que o novo coronavírus pode pelo ar se espalhar até mesmo pela vizinhança de hospitais.
  10. Surto sério – Por mais que o governo Bolsonaro se comporte como um pinscher diplomático dos Estados Unidos, Donald Trump está tão temeroso da situação sanitária do Brasil que cogita suspender os voos entre as duas nações.

Um Pio

Abre Aspas

“We received a donation from Prezada não estou a venda B, thank you! Without kind and loyal supporters like Prezada não estou a venda, Bot Sentinel wouldn’t be possible!”

Bot Sentinel, bot do bem, provando que a zoeira, ela não tem limites.

Vale Seguir

O Projeto Inspire está conseguindo desenvolver um ventilador pulmonar quinze vezes mais barato que os vendidos no mercado, o que há de salvar vidas no combate à covid-19.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Crusoé, Estadão, Época, Financial Times, Folha de S.Paulo, G1, O Antagonista, O Globo, Poder 360, R7, The Intercept Brasil, UOL e Valor Econômico.

28.04.2020 - Brasília/DF Foto: Jose Cruz/Agencia Brasil

A imagem que ilustra essa edição foi registrada por José Cruz, fotógrafo da Agência Brasil, em Brasília, Distrito Federal. Nela, André Luiz de Almeida Mendonça, o próximo ministro da Justiça.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque o que intriga é a natureza do jogo.

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