Grande História

Uma missão aos viajantes do tempo

01.11.2011 - Brasília/DF - A presidenta Dilma Rousseff recebe a faixa presidencial de Lula, no parlatório do Palácio do Planalto. Brasília, 1º de janeiro de 2011. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

O escândalo dos cartões corporativos, o grande gol de Dilma, junho de 2013, impeachment, Bolsonaro, e muito mais.

Junho de 2007 até deixou algumas marcas na história. Foi nesse mês, por exemplo, que Ali Hassam al-Majid, o “Ali Químico”, findou condenado à morte por crimes contra a humanidade; que a Apple lançou o iPhone; que Renan Calheiros, ainda na Presidência do Senado, se complicava como “Renangate”; e que Lula, com um irmão flagrado sob suspeita de tráfico de influência, defendia o fechamento de um canal de TV na Venezuela.

Foi também nesse junho que um pequeno acontecimento mudou para sempre a história do Brasil. Orlando Silva sentiu fome, e resolveu matá-la com uma tapioca que custou exatos oito reais e trinta centavos. Segundo relataria meses depois, o então ministro do Esporte tinha em mãos dois cartões parecidos, um pessoal e o corporativo. Mas teria se confundido, fazendo com que a população brasileira arcasse com a despesa.

129%

Ainda de acordo com Orlando, o erro foi percebido e corrigido já em 29 de outubro daquele ano. Mas a informação só chegou ao público um pouco depois de, em janeiro de 2008, ser noticiado que os gastos com cartão corporativo tinham crescido 129% no ano anterior, atingindo o recorde de R$ 75,6 milhões.

Primeira vítima

O primeiro caso encaminhado à Controladoria Geral da União foi o de Matilde Ribeiro, que havia consumido R$ 171,5 mil com cartão corporativo no ano anterior. Quatro dias depois, a ministra especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial pediu demissão. Contudo, para o folclore e sede de justiça da opinião pública, ficou a tapioca de Orlando Silva.

Preconceito

O ministro à frente da CGU viu na implicância com a tapioca uma espécie de preconceito com o Nordeste. Jorge Hage dizia que o escândalo não teria chegado àquela proporção se o ministro do Esporte tivesse rangado, por exemplo, “um hambúrguer“.

Batismo

Quando, ao final de fevereiro de 2008, o Congresso veio com a CPMI dos Cartões, a comissão já estava apelidada havia um mês: “CPI da Tapioca“. Que, como era de se esperar, só consumia tempo dos parlamentares brasileiros.

“Levantamento”

Até que, ao final de março, a Veja descobriu que o Palácio do Planalto preparava um dossiê com gastos pessoais de Fernando Henrique Cardoso e Ruth Cardoso ainda do período em que residiam no Palácio da Alvorada. O governo Lula, no entanto, trabalhava a narrativa de que o tal dossiê não passava de um mero “levantamento“.

Indignação

Era um tempo em que a produção de dossiês contra adversários políticos causava uma merecida indignação. Desta forma, a oposição tentou em 2008 convocar a Casa Civil para esclarecimentos.

Sem opções

Desde 2005, com a queda de José Dirceu, a pasta estava aos cuidados de uma rara petista livre de escândalos de corrupção. Era desconhecida, pouco carismática, mas Lula não via saída além trabalhá-la como sucessora.

Guerra

A oposição não conseguiu convocar a chefe da Casa Civil. Mas, no dia seguinte, a Folha de S.Paulo deu que o tal dossiê teria sido encomendado por Erenice Guerra, secretária-executiva da ministra, que meio sem jeito negava a produção de um dossiê sob o argumento de que preparava um “banco de dados” com gastos dos governos Lula e FHC.

“Madrasta do dossiê”

Aos críticos, a crise era grave o suficiente para, com dois anos e meio de antecedência, tirar a ministra da corrida presidencial. A “Mãe do PAC” rapidamente teria virado a “madrastra do dossiê“.

Malandragem

Quando, na semana seguinte, a Folha mostrou o tal banco de dados numa tela de computador, a oposição se assanhou. A CPMI da Tapioca deu vez à CPI Exclusiva dos Cartões Corporativos. Mas, para convocar a ministra, a oposição precisou recorrer a uma malandragem, uma votação relâmpago na Comissão de Infra-estrutura.

Deu certo. De 7 de maio de 2008, a chefe da Casa Civil não escaparia.

“Regimes de exceção”

A oposição foi preparada. De cara, José Agripino puxou uma entrevista antiga, e peitou a sabatinada com aspas da própria ministra confessando que mentira descaradamente nos depoimentos dados à ditadura militar. Para o senador, a produção daquele dossiê seria uma volta a “regimes de exceção“.

Foi quando Dilma Vana Rousseff marcou o gol da vida.

Motivo de orgulho

No dia seguinte, ninguém nem lembrava mais de tapioca. Só se comentava que Lula havia achado a sucessora. O próprio presidente falou que a ministra “foi motivo de orgulho para quem participa do governo“.

Efeito borboleta

Se Orlando Silva não confunde o cartão pessoal com o corporativo, os R$ 8,30 gastos naquela tapioca não chamariam tanta atenção no noticiário, não haveria “CPI da tapioca”, nem dossiê contra FHC e Ruth Cardoso, nem “gol de Dilma”. Talvez nem houvesse candidatura da “Mãe do PAC”.

Inflação de 1%

O que significaria que, temerosa de que a inflação chegasse a 1% no janeiro de 2013, a presidente não pressionaria as prefeituras paulistana e carioca para que adiassem para maio um aumento de tarifas tradicionalmente praticado num período em que o movimento estudantil curte férias.

Ao chão

O que poderia evitar que, no 6 de junho de 2013, o Movimento Passe Livre iniciasse uma série de protestos contra o aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus. O que não arrastaria milhões de pessoas às ruas, nem a popularidade de Dilma ao chão.

Pedalando o problema

Dilma não se sentiria pressionada a sancionar a lei da delação premiada, primordial para o sucesso da Lava Jato, nem a detonar as contas públicas para se reeleger, um desarranjo que resultaria numa queda por impeachment três anos depois.

Terror de Dilma

Nem o processo serviria de palco para Jair Bolsonaro impunemente homenagear um torturador. Nem o combate à corrupção serviria de escada a um presidenciável cujo filho financiava milicianos num gabinete no Rio de Janeiro.

Sem convocação

Certamente o país não teria hoje uma fábrica de dossiês apelidada de “Abin paralela” funcionando dentro do Palácio do Planalto — sem que isso gere qualquer convocação para qualquer CPI, frise-se.

O dobro por mês

Talvez o Brasil não tivesse agora um presidente da República gastando sigilosamente por mês o dobro do que Matilde Ribeiro, única punida em todo o escândalo dos cartões corporativos, gastou sem sigilo por todo o ano de 2007 — e, sim, o valor foi corrigido pela inflação.

Exceção

E talvez não houvesse em 2020 o temor de uma volta a um regime de exceção, ou um medo parecido com o que José Agripino dizia sentir em 2008.

Missão

Tudo isso seria evitado se, em junho de 2007, alguém alertasse Orlando Silva de que estava pagando os R$ 8,30 daquela tapioca com o cartão errado.

Eis a missão aos viajantes do tempo.

Epílogo

Ruth Cardoso morreu um mês e meio após o “gol de Dilma”, aos 77 anos, de uma arritmia cardíaca. Lula compareceu ao velório, e o abraço no ex-presidente rendeu um momento histórico.

Passados 6 anos, FHC ainda se dizia magoado com toda a crise do dossiê. Mesmo assim, em 2017, com a declaração da morte cerebral de Marisa Letícia, foi a vez de o tucano, em um novo momento histórico, retribuir a gentileza ao petista.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Época, Estadão, Extra, Folha de S.Paulo, G1, NY Times, O Antagonista, O Globo, UOL e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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