Grande História

Na prática, Bolsonaro sofreu uma intervenção militar

02.04.2020 - Brasília/DF - O ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, participa de coletiva de imprensa no Palácio do Planalto sobre as ações de enfrentamento ao covid-19 no país. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil.

A “demissão” de Mandetta, o risco de impeachment, a intervenção dos militares, o recuo de Bolsonaro, o uso da cloroquina, e muito mais.

A notícia de que Jair Bolsonaro se decidira pela demissão do ministro da Saúde foi recebida nas redes sociais com cautela. Afinal, havia o risco de tudo não passar de uma mentira disseminada com o objetivo de humilhar a imprensa, uma jogada manjada do manual de Steve Bannon. Mas o terceiro ato não se concretizou, e o presidente da República não veio a público chamar de “fake news” as informações sobre a substituição de Luiz Henrique Mandetta por Osmar Terra.

Em outras palavras, era verdade: em meio à maior emergência sanitária em um século, o chefe do Executivo trocou um dos auxiliares mais bem avaliados por um negacionista que vem sendo punido por espalhar desinformação nas redes sociais. A gota d’água foi bizarra: a aparição gravada do ministro em uma transmissão ao vivo feita pela dupla sertaneja Jorge & Mateus no final de semana. Segundo Mandetta, até as gavetas dele chegaram a ser esvaziadas.

Linha traçada

Só ao final da tarde veio o recuo, com direito a uma audaciosa coletiva do ministro que irritou o chefe. Mas a linha traçada no chão se fez mais clara. Tolera-se de tudo para evitar um processo de impeachment; todavia, a sabotagem ao combate à covid-19 seria o fim para Bolsonaro.

Intervenção

Nem a ala fardada endossou a loucura e atuou pela manutenção do cargo de Mandetta, ainda que com críticas descabidas ao elogiado trabalho dos governadores. No 1º de abril, um projeto militante que costuma estar bem informação sobre os militares publicou que Walter Braga Netto fora promovido a uma espécie de Chefe do Estado-Maior do Palácio do Planalto, restando ao presidente uma ponta como figurante. O 6 de abril provou que não era mentira, com o chefe da Casa Civil contendo a sandice de Bolsonaro – e, claro, virando de imediato alvo de linchamento virtual dos bolsolavistas.

Cutucando Uip

Ontem, o ex-presidente em exercício queria um decreto explorando o uso da hidroxicloroquina, mas Mandetta se recusou a assinar. Sem muito o que fazer, Bolsonaro amanheceu hoje reclamando que David Uip não respondia se fez uso de hidroxicloroquina para se curar da covid-19. De fato, para não incentivar automedicação, o coordenador do Centro de Contingência de Coronavírus do governo de São Paulo evitou descrever o tratamento a que foi submetido.

Lavou as mãos

Ao fim do dia, o ministro da Saúde anunciou que, caso os médicos assumam os riscos dos efeitos colaterais, estava liberado o uso de cloroquina a pacientes moderados. Um estudo da Fiocruz, no entanto, observou que a letalidade entre pacientes que fazem uso do remédio pouco se altera, e alertou que uma dose elevada pode ser danosa ao organismo.

Tapas e beijos

No flanco diplomático da guerra, a China ameaçou retaliar comercialmente o Brasil caso o bolsolavismo não ceda nos ataques racistas, em especial, aqueles cometidos por Abraham Weintraub e Eduardo Bolsonaro. O risco, óbvio, é o agronegócio brasileiro pagar pela irresponsabilidade governista. Mas, no meio da tarde, a embaixada chinesa publicou nas redes sociais que Mandetta entrara em campo para salvar o dia.

Cerco se fechando

Se o ego de Bolsonaro não permitir que ele durma ao saber que, graças ao mais novo desafeto, os ministérios da Saúde brasileiro e chinês irão compartilhar conhecimento sobre a covid-19, ele pode se distrair com a ação de 20 procuradores do MPF do Pará contra os discursos do presidente críticos ao isolamento social. Ou com a descoberta de que, em 2009, o então deputado federal gastou R$ 2.608,00 em um posto de combustível comprando mais de mil litros de gasolina comum. Ou com as três notícias-crime remetidas por Marco Aurélio Mello à PGR. Ou ainda com as providências pedidas pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal à ONU e à OMS.

Desenhou

Curtas

  1. A Caixa Econômica Federal lançou um aplicativo para a solicitação do auxílio emergencial de seiscentos reais, mas é preciso ficar atento para não instalar um app falso dentre os muitos já disponíveis.
  2. Ricardo Lewandowski não viu problema em ampliar a burocracia durante uma pandemia e decidiu que os sindicatos precisam ser ouvidos antes que acordos de redução de salário sejam validados.
  3. Enquanto o mundo combatia a covid-19, Ricardo Salles aproveitava a distração para demitir um analista contrário à exportação não-autorizada de madeira.
  4. A covid-19 não perdoou nem o pastor da igreja frequentada por Michelle Bolsonaro, que está internado, ainda que estável.
  5. Sem autorização, usaram a assinatura do jurista Modesto Carvalhosa em uma petição eletrônica que pedia por intervenção militar.
  6. A Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais reconheceu que errou ao calcular uma enorme alta nas mortes por insuficiência respiratória e pneumonia, o que equivocadamente fortaleceu a suspeita de que Minas Gerais vinha subnotificando os óbitos por covid-19
  7. Limitando o poder de fogo da máquina de mentiras do governo, o WhatsApp está reduzindo de 5 para 1 o total de vezes em que um mesmo conteúdo pode ser reencaminhado na rede.
  8. Nos Estados Unidos, a covid-19 matou um pastor que, mesmo com sintomas da doença, e em defesa de Donald Trump, reclamou da histeria em torno do assunto.
  9. A humanidade afeta tanto o meio ambiente que o isolamento dela permitiu que, após uma década, pandas de um zoológico de Hong Kong voltassem a procriar.
  10. Só nas últimas 24 horas, a covid-19 matou 114 brasileiros, ou 17 vítimas a mais que os 99 óbitos do acidente com o Fokker 100 da TAM em 1996.

Um Pio (ou dois)

Abre Aspas

“Não se trata de admiração pelo atual ministro da saúde, trata-se de denunciar a troca de uma atitude científica, ditada pela medicina, por um ato de politicagem rasteira que pode matar muitos brasileiros!”

Ciro Gomes, ainda presidenciável, delineando o “crime contra a humanidade” que Jair Bolsonaro cometia.

Vale Seguir

O Fubeca’s Marble Runs permite um bom distanciamento de um noticiário tão estressante ao exibir emocionantes corridas de… Bolas de gude.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BBC, Estadão, Estado de Minas, Exame, Folha de S.Paulo, Gazeta do Povo, G1, O Antagonista, O Globo, Reuters, Valor Econômico, Veja e UOL.

02.04.2020 - Brasília/DF - O ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, participa de coletiva de imprensa no Palácio do Planalto sobre as ações de enfrentamento ao covid-19 no país. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil.

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 2 de abril de 2020 por Marcello Casal Júnior, fotógrafo da Agência Brasil, em Brasília, Distrito Federal. Nela, o ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, participa de coletiva de imprensa no Palácio do Planalto sobre as ações de enfrentamento ao covid-19 no país.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque às vezes é melhor nem dizer nada.

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