Grande História

Não existe país decente sem imprensa livre

As visões de direita e esquerda, o ódio à imprensa, a lógica do mercado, o melhor plano possível, as alternativas ao leitor, e muito mais.

Mesmo como um contraponto democrático à ascensão de Jair Bolsonaro, Lula não se cansava de repetir que iriaregular os meios de comunicação“, um eufemismo para censura. Tanto que, posta em prática na Venezuela, a tal regulação serviu apenas para calar veículos críticos ao chavismo.

Bolsonaro evita cometer vacilo semelhante, e vive a prometer que jamais tomará qualquer medida contra a liberdade de imprensa. Mas, por outros meios, encampa ataques bem mais brutais. Ao ponto de, hoje, não mais ser seguro a um jornalista cobrir a portaria da residência oficial do presidente da República.

No Brasil, o ódio à imprensa pode até variar de intensidade, mas não é exclusividade de um lado. E, por vezes, parte até mesmo dos indivíduos mais esclarecidos. Talvez porque a imprensa de fato cometa erros, o que não há de agradar ninguém, nem quem os comete. Mas é nítido que o rancor se origina mais da publicação de informações que colocam em dúvida as convicções do consumidor da notícia.

Um professor costumava comparar o jornalista a um “encantador de serpentes”. Ou seja, ao profissional que se sustenta hipnotizando um animal peçonhento que, à primeira distração, não pensaria duas vezes antes de matá-lo. A metáfora, claro, se refere ao povo. Mas o povo talvez não imagine que a comparação também se refere ao rei.

“Cúmplice e sabotador do Poder, o comunicador sempre faz parte do sistema, mas luta para modificá-lo. É esta posição dupla que lhe garante a eficácia simbólica. Sua palavra só é mágica porque atende ao povo e ao rei.” As aspas são de Marcelo Bolshaw, o tal professor, um figura polêmica da faculdade que cursei, mas querida por mim, afinal, foi um dos poucos que se dispôs a defender o meu direito de ter uma visão de mundo distinta da dos colegas de estudo.

Porque, não precisamos enganar ninguém, há até um ou outro direitista lá, mas as faculdades de jornalismo são essencialmente esquerdistas. Foi com os meus colegas de curso, por exemplo, que em 2002, antes das nossas divergências, celebramos em frente ao diretório do PT a eleição de Lula. E isso, claro, chega às redações.

Ao mesmo tempo, é natural que o jornalismo tenha, por padrão, uma visão de mundo esquerdista. Afinal, a maior parte das pautas nascerá de falhas do sistema. E o que é a esquerda senão um eterno desejo de alterar o sistema?

Mas a própria esquerda costuma enxergar a imprensa como uma arma a serviço da direita. Tanto que deseja a regulação. E, de fato, alguns dos maiores nomes da imprensa nacional eram conservadores assumidos, como os Robertos Marinho e Civita, pra ficar nos dois maiores de seus tempos. Isso, no entanto, é uma questão menor.

Porque a imprensa tradicional possui um método para a redução de danos. Antes de uma matéria ser veiculada, a informação é checada com fontes seguras, o outro lado é ouvido, o texto é revisado por um ou mais editores, e o trabalho ainda pode vir a precisar da defesa de bons advogados. Parece simples, mas os riscos envolvidos demandam uma estrutura cara. E toda grande empresa, em qualquer lugar do planeta, precisará de uma relação saudável com o governo da vez.

É aqui que nasce o conflito entre chefe e jornalista. Enquanto este quer modificar o establishment, esse sabe que precisar dialogar, ou talvez não tenha condições de pagar o salário do mês. É menos uma questão ideológica, e mais instinto de sobrevivência. Ou a complexa missão de modificar o sistema fazendo parte dele.

Enquanto um plano melhor não surge, o caminho é ter vários, muitos, incontáveis veículos de imprensa. De forma que, se a Veja não quer ser o primeiro canal a noticiar o Mensalão, a Folha de S.Paulo se dá ao trabalho. E se a Folha, por algum motivo incompreensível a quem está de fora, evita publicar a foto de ministros do STF combinando voto por e-mail, O Globo publica as tais imagens.

Ambos os exemplos são reais. E mudaram a história recente do Brasil. Nada daquilo chegaria ao público se houvesse apenas veículos reverberando as informações de interesse do Estado. E, ainda que a proposta soe tentadora aos fãs do governo Lula, a tal “regulação dos meios de comunicação” impediria hoje que esse mesmo petista soubesse que Jair Bolsonaro montou no Palácio do Planalto uma agência de espionagem clandestina.

Nada disso implica numa perfeição da imprensa. Ela erra. Por vezes, erros graves. Em raras vezes, de má fé. Mas, sem liberdade de imprensa, não há país decente. Porque a própria imprensa cumpre um papel moralizador. E porque, se um governo não permite que seus cidadãos tomem conhecimento dos erros cometidos pelo próprio governo, esse governo não presta.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: CNN Brasil, Correio Braziliense, Crusoé, Estadão, Extra, Folha de S.Paulo, G1, O Globo e UOL.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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