Grande História

O que fez Nelson Teich, ministro da Saúde, pedir demissão

15.05.2020 - Brasilia/DF - O ministro Nelson Teich durante pronunciamento sobre a sua demissão do ministerio da Saúde. Foto: Erasmo Salomão/MS

A demissão de Teich, o imbecil convicto, o encalhe de cloroquina, a lambança administrativa, a MP da lambança, e muito mais.

Ainda ontem, Jair Bolsonaro garantia a um grupo de empresários que não tinha problemas com Nelson Teich. Mas que, por ordem do presidente da República, o Ministério da Saúde iria alterar o protocolo para que a cloroquina fosse utilizada também em pacientes com sintomas leves de covid-19. O ministro, no entanto, ouviu de todos os hospitais consultados que não era recomendado o uso de medicamento tão complicado nos casos mais simples da doença. Diante da instransigência do chefe, Teich pediu demissão quatro semanas após assumir a pasta — o que voltou a provocar panelaços.

Não falta estudo colocando em dúvida a eficiência da hidroxicloroquina no combate ao novo coronavírus. Se não acredita na ciência, Bolsonaro poderia refugar da ideia ao constatar que a lenda do remédio que obraria milagre também está sendo explorada por Nicolás Maduro na Venezuela. Ou poderia mais uma vez macaquear Donald Trump, que deixou a maluquice no passado após a CIA alertá-lo do risco de a medicação levar a óbito. A insistência do brasileiro, contudo, levantou suspeitas.

Imbecil convicto

Já se sabe que uma fabricante do remédio que Bolsonaro propagandeava pertence a Renato Spallicci, bolsolavista assumido. E Osmar Terra, ex-ministro que se ofendeu com um texto crítico ao que é chamado genericamente de “imbecil convicto“, vinha sondando os militares em mais uma tentativa de assumir o gabinete de Teich. Mas há mais mistérios entre a cloroquina e Terra do que desconfia a vã filosofia.

Encalhou

Há quase dois meses, mesmo sem eficácia comprovada, Bolsonaro mandou o Exército produzir cloroquina como nunca. De pouco mais de 100 mil comprimidos por ano, a produção saltou para 500 mil por semana. Até os laboratórios da Marinha e da Aeronáutica ajudaram na fabricação. Assim como não existe almoço grátis, não existe insumo grátis, e as Forças Armadas estão com um prejuízo nas mãos.

MP da lambança

É neste contexto que Bolsonaro quer obrigar hospitais a usar um remédio tão arriscado mesmo nos pacientes de sintomas mais leves. Quanto à lambança administrativa, está blindada por uma Medida Provisória —aquela que dificulta a punição de agentes públicos que cometam erros grosseiros relacionados à pandemia— assinada dias atrás pelo próprio presidente.

Filho de madame

Não por acaso, a alternativa sacada previamente pelo presidente se chama Eduardo Pazuello, mais um dos muitos generais que pajeiam Bolsonaro como se fosse o filho mimado de uma madame temperamental. O atual “número dois” da Saúde já tinha se acostumado a driblar o “número um” e soprar na orelha presidencial tudo o que o ouvido presidencial queria ouvir. Portanto, não será estranho se também driblar o negacionista Terra e se tornar o próximo ministro deste governo.

Quem tem pressa não se interessa

Assim que Teich anunciou a demissão, o Ministério da Saúde deu início à redação do novo protocolo. Para tanto, trabalharão com base nas recomendações do Conselho Federal de Medicina, que anda bem conivente com isso tudo. A missão foi iniciada por ordem de Pazuello, já atuando como interino. Mas o discurso oficial é de que o substituto será escolhido com uma calma ainda inédita neste governo. Afinal, não é como se o Brasil estivesse enfrentando uma pandemia que tem matado mais de 800 de seus cidadãos diariamente.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Crusoé, Época, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, Metrópoles, O Antagonista, O Globo, UOL e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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