Grande História

O que diabos quer Hamilton Mourão?

11.02.2020 - Brasilia/DF - O presidente Jair Bolsonaro o vice Hamiltom Mourão durante cerimônia de Assinatura do Decreto de Criação do Conselho da Amazônia. Foto:Isaac Amorim/MJSP

O abandono do Ministério da Saúde, a cloroquina pra criancinha, o veto ao socorro, a blindagem ao gabinete do ódio, e muito mais.

Ontem, a cada 68 segundos, o Brasil contabilizou uma nova vítima fatal de covid-19. Nesse ritmo, ao término desta leitura, mais cinco óbitos entrarão para as estatísticas oficiais do governo Bolsonaro. Inclusive, desde que o texto começou, outros cinco brasileiros já se descobriram infectados pelo novo coronavírus. E este é apenas o primeiro parágrafo.

Era nesse cenário que o país completava 18 dias sem ministro da Saúde. E tudo indica que passará dos 3 meses aos cuidados de um interino. Ou pior: de uma general com experiência não em saúde, mas em logística. De novidade recente, só o convite para que a pasta ganhe o reforço do fundador de uma escola de idiomas que também atua como missionário da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Cloroquina para toda criancinha

Carlos Wizard já adiantou que, por ele, receitaria cloroquina para “toda criancinha do Brasil“. É verdade que a OMS retomou os testes após a Lancet anunciar uma auditoria no trabalho que alertara dos malefícios da droga no combate à covid-19. Mas já há estudo novo confirmando, no Canadá, que não há benefício.

Vetando o socorro

Por aqui, Jair Bolsonaro impediu que R$ 8,6 bilhões de um fundo do IOF fossem repassados para que governadores e prefeitos combatam a pandemia. Pela proposta original do presidente, a fortuna deveria ser utilizada no pagamento da dívida pública. Mas o Congresso, que havia aprovado a alteração por unanimidade, pode ainda derrubar o veto.

Goleada em casa

Não por acaso, a popularidade do presidente anda mal até no território “dele”. Depois que a Polícia Federal despertou os integrantes do “gabinete do ódio”, a oposição vem goleando Bolsonaro em 80% a 12% no Twitter. E olha que a rede social nem esconde de qual lado está nessa briga, e se recusou a entregar ao Ministério Público Federal a identidade do responsável por dois dos muitos perfis do “pavão misterioso”.

Blindados

Os milicianos digitais também contam com a blindagem de Wagner Rosário e Braga Netto. O ministro da CGU e o chefe da Casa Civil mantêm sob sigilo o destino dos R$ 155 milhões que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal gastaram em publicidade online só no ano passado. E nem adianta apelar à Lei de Acesso a Informação, pois os malditos a ignoram.

Nem merece resposta

A lei que interessa ao governo Bolsonaro é a antiterrorista. Daniel Silveira, o deputado federal que se elegeu rasgando a placa em homenagem a Marielle Franco, quer tipificar os “antifas” como terroristas. Conta com a concordância de Bolsonaro, que não desperdiçou mais uma oportunidade de macaquear Donald Trump. Mas Rodrigo Maiarespondeu que a iniciativa “não merece nem resposta“.

Armistício

O presidente da Câmara recebeu uma visita de Fernando Azevedo e Silva, o ministro da Defesa que também visitou Alexandre de Moraes. As conversas serviram para baixar o fogo da crise política. Ao ponto de o presidente da República prestigiar no TSE a posse do membro do STF que já enxerga Carlos Bolsonaro no horizonte do inquérito sobre linchamentos virtuais.

Vitória por inércia

Por isso é tão difícil compreender o que quer Hamilton Mourão. Com o titular cometendo tanta atrocidade, bastaria manter-se inerte para que a faixa presidencial caísse no ombro. Mas, em nova tentativa de soar o adulto na brinquedoteca, assinou um segundo artigo em menos de um mês.

Poderá estar ocorrendo

Ao mesmo tempo em que tentou dar garantias democráticas, defendeu um governo golpista. E, ao alertar dos riscos da polarização, saiu-se um gerundista ameaçador: “poderá haver quem pense estar ocorrendo uma extrapolação das declarações do presidente ou de seus apoiadores para justificar ataques à institucionalidade do País”.

Advogado do diabo

Tanta dubiedade soa coisa de quem recebeu a ingrata missão de advogar para o diabo, mas quer manter-se como uma alternativa viável. E esse aceno precisa mirar mais a base que quer continuar governo do que uma oposição que não se une nem contra o fascismo que por toda uma vida jurou combater.

Questão de sobrevivência

O fato é que não há como o país sair de qualquer crise com Jair Bolsonaro no comando. E que, por mera questão de sobrevivência, mesmo os aliados de fidelidade mais canina precisarão se livrar do problema entregando a família presidencial à opinião pública. Mas isso só será testemunhado por quem sobreviver à pandemia. Até lá, fiquemos em casa.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BR Político, Crusoé, Época, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, IstoÉ, O Antagonista, NY Times, O Antagonista, O Globo, UOL, Valor Econômico e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Click to comment

You must be logged in to post a comment Login

Leave a Reply

To Top