Grande História

O que falta para o impeachment de Jair Bolsonaro

Jair Bolsonaro

A crise diplomática com a China, o maior dos panelaços, a perda de popularidade de Bolsonaro, a fuga dos ratos, os pedidos de impeachment, e muito mais.

Até 15 de março, Donald Trump se referia à covid-19 como “CoronaVirus“. Desde então, o presidente dos Estados Unidos vem preferindo a expressão “Chinese Virus“. A iniciativa tem sido criticada, afinal, ao batizar a doença provocada pelo novo coronavírus, a OMS evitou termos que pudessem gerar qualquer tipo de preconceito contra animais, povos e países. Trump alega que, se o vírus de fato veio da China, ele não está sendo racista. Os analistas observam, no entanto, que o republicano alimenta uma militância xenofóbica na busca por um discurso que facilite a reeleição ao final deste ano.

Passados dois dias, Eduardo Bolsonaro usou o Twitter para defender que a culpa pelo avanço da covid-19 seria da China. A diplomacia chinesa, claro, não gostou. E, de maneira pouco diplomática, usou o mesmo Twitter para dizer que o Zero Três “contraiu vírus mental” – risos.

Adultos na sala

Com a crise diplomática posta, o papel de adulto na sala coube mais uma vez a Rodrigo Maia. O pedido de desculpa do presidente da Câmara aos principais parceiros comerciais do Brasil harmonizou bem com o pedido de respeito feito por Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde elogiado pela gestão da crise sanitária.

Panelaçaços

A crise diplomática se desenrolou minutos após Jair Bolsonaro, pela segunda noite consecutiva, ser alvo de intensos “panelaços“. E lembrar Collor ao convocar um paradoxal e inexpressivo “panelaço a favor”. Na Rede Globo, a cobertura dos acontecimentos da noite teve picos de 40 pontos de audiência.

Virada de jogo

No Twitter, segundo monitoramento da FGV, o bolsolavismo já foi reduzido à metade. De acordo com a Arquimedes, uma startup de tecnologia, o presidente da República colecionou mais de 80% de menções negativas nos dois dias de protesto. Uma pesquisa da Atlas Político viu a avaliação positiva de Bolsonaro cair ao recorde de 25,6%, com a negativa subindo a 41%. De acordo com o mesmo levantamento, a fatia de 44,8% dos brasileiros que querem o impeachment de Bolsonaro é apenas 0,4 ponto percentual menor que os 45,2% que (ainda) não querem.

Abandonar o navio

Como se não fosse de domínio público que as crises mais desnecessárias do Governo Federal nascem dos conselhos de seu aluno mais prestigiado, Olavo de Carvalho reagiu ao bater de panelas reclamando que o presidente cometeu suicídio ouvindo as Forças Armadas.

Entre Aspas

“Panelaço é a forma mais simples, mais segura, mais barata e mais eficiente de protesto. A mensagem do panelaço é a mais clara possível: CALE A BOCA. VÁ EMBORA.”

Olavo de Carvalho, filósofo amador, em maio de 2015, quando ainda estava do lado que arremessa pedras nas vidraças.

Pedidos de impeachment

Já há três pedidos de impeachment entregues (um de deputados federais do PSOL, um de um deputado distrital da Rede, e um de um deputado federal do PSDB) e outros dois em andamento (de um vereador de Belo Horizonte, e da OAB).

De prosa com os ex

Chama atenção o caso da OAB, pois a ideia caminha enquanto Felipe Santa Cruz, presidente da entidade já humilhado em público por Bolsonaro, se encontra com José Sarney, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Michel Temer. Em movimento que lembra o Temer de 2015, e o finado Itamar Franco de 1992, Hamilton Mourão vem tomando uma distância saudável do presidente da República.

Unindo todas as tribos

O impeachment de Bolsonaro é uma bandeira que a UNE cogita levantar. Há dois dias, Miguel Reale Júnior defendeu que uma junta médica avaliasse a sanidade do presidente. Janaina Paschoal foi mais dura e exigiu o afastamento do ex-aliado. Hoje, o Estadão cravou em editorial que “Bolsonaro não é um presidente, mas um estorvo“.

Sorte no jogo, azar no amor

Mas o avanço do novo coronavírus é o azar e a sorte de Bolsonaro. Se, por uma lado, a popularidade do presidente derrete em decorrência de uma conduta desastrosa das infinitas crises, por outro, há uma crise sanitária exigindo prioridade. Tanto que, mesmo com o presidente em xeque, Rodrigo Maia escolheu esperar – um momento mais oportuno ou obstáculos ainda maiores impostos pela ala abilolada do Palácio do Planalto.

Terra das infinitas crises

Por ora, o movimento dos demais poderes tem por objetivo conter os excessos presidenciais. O que soa sensato, ao mesmo tempo em que soa ingênuo. Enquanto esse texto era redigido, Ernesto Araújo, o ministro das Relações Exteriores que atua como estagiário de Filipe Martins (o pupilo de Olavo que assina como assessor internacional de Bolsonaro), publicou uma nota patética contra a diplomacia chinesa, requentando uma crise que parecia superada com o pedido de desculpas do presidente da Câmara.

Zerou o jogo

Enquanto o Brasil enfrenta a fanfarra golpista do bolsolavismo, a China, que de fato entrou na crise com o pé esquerdo, adotava uma conduta tão certeira que já zerou a transmissão local de novo cornavírus.

Musicou

Curtas

  1. Enquanto o Brasil soma 621 casos confirmados e fecha as fronteiras com países vizinhos, a covid-19 já mata mil pessoas por dia no mundo.
  2. Segundo Sidney Klajner, presidente do hospital Albert Einstein, para cada caso notificado de novo coronavírus, deve haver em torno de outros 15 ainda sem diagnóstico no Brasil.
  3. Diferente do que foi noticiado, o senador Nelsinho Trad não está na UTI, mas segue internado e estável no hospital Sírio-Libanês.
  4. Trad tem certeza que adoeceu na aeronave que trouxe a comitiva presidencial que já soma 20 infectados.
  5. Mesmo com o dólar há quatro dias acima dos cinco reais, o Banco Central reduziu a taxa básica de juros a 3,75%, a menor da história.
  6. De acordo com a Polícia Federal, Aécio Neves somou R$ 65 milhões em propinas da Odebrecht e da Andrade Gutierrez entre 2008 e 2011.
  7. Contra o novo coronavírus, até o Cascão está lavando as mãos.
  8. Como há males que vêm para o bem, George R.R. Martin tem aproveitado a quarentena para concluir o sexto livro de “A Song of Ice and Fire”, a saga que deu origem à série Game of Thrones.
  9. Por outro lado, a pandemia fez com que a gravação do reencontro do elenco de Friends fosse adiada para maio.
  10. Por aqui, o confinamento tem dobrado a quantidade diária de novas assinaturas do Brasileirinhas, maior produtora de vídeos eróticos do Brasil.

Um Pio

Vale Seguir

A primeira semana de Gabriela Prioli na CNN Brasil tem sido muito elogiada nas redes sociais. Ao que tudo indica, ela é daquelas que não deixa conversa fiada ir longe. Vale conferir.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BBC, B9, CNN, El País, Época, Estadão, F5, Folha de S.Paulo, Infomoney, O Antagonista, O Globo, Terra, UOL, Veja e Vortex Media.

Jair Bolsonaro

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 18 de março de 2020 por Carolina Torres, fotógrafa da Presidência da República, em Brasília, no Distrito Federal. Nela, em coletiva à imprensa, Jair Bolsonaro e ministros de Estado falam sobre o novo coronavírus.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque é uma canção legal, independente de ninguém ter dado bola para um álbum que ficou 12 anos em produção.

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