Grande História

Página infeliz da nossa história

Jair Bolsonaro

O pronunciamento insano de Jair Bolsonaro, o auxílio dos bolsolavistas, a derrota governista nas redes sociais, a reação dos governadores, a conduta do ministro da Saúde, e muito mais.

A missão jornalística é complexa: alimentar a opinião pública de forma que não se entregue ao pânico, ou ao descaso. Há, no entanto, algumas certezas: “gripezinha” não faz com que uma pista de patinação no gelo precise ser convertida em um gigantesco necrotério ou os corpos que se amontoam em Madrid apodreceriam; “gripezinha” não faria a Organização das Nações Unidas alertar os líderes do G-20 que há o risco de o mundo ser atingido por uma “pandemia de proporções apocalípticas“. Mas a missão de Jair Bolsonaro é outra.

Na noite de ontem, contrariando o que havia repassado com Paulo Guedes ao Congresso, o presidente da República foi à TV e ao rádio ironizar a imprensa, desautorizar governadores, insistir na sandice de que a população deve abandonar o confinamento, e, contra todos os alertas dos especialistas, novamente prometer uma cura que está longe de existir.

Se dependesse de Bolsonaro, apenas os integrantes dos grupos de risco se isolariam da sociedade. A desculpa é a mesma dada pelos empresários que cegamente apoiam o bolsolavismo: a tragédia humanitária não seria comparável à tragédia econômica que se avizinha.

Preparativos

Como era de se esperar, o pronunciamento homicida veio da ala abilolada do Palácio do Planalto, incluindo Carlos Bolsonaro, uma espécie de vereador federal. Inspirou-se numa interpretação equivocada do discurso feito ontem por Donald Trump. Foi uma sugestão dos bolsolavistas numa tentativa de reverter o 7 a 1 que o pai do Zero Dois vem tomando nas redes sociais. A iniciativa, no entanto, fez o Governo Federal sofrer um oitavo gol.

Em proporção

Segundo interlocutores de Luiz Henrique Mandetta, a iniciativa foi acordada com o ministro da Saúde, o que soa estranho. Antes de surgir na TV, Bolsonaro foi informado de que, só nos primeiros 20 dias após o primeiro óbito, a covid-19 deve matar mais de 5,5 mil brasileiros, ou cinco vezes mais do que a gripe comum matou em todo o ano passado.

Oitavo panelaço

De imediato, iniciou-se um panelaço nas principais cidades do país. Nas redes sociais, comentava-se do recorde de fúria da oitava noite seguida de protesto. As reações negativas ao pronunciamento se avolumaram. Parlamentares se disseram perplexos. Militares palacianos se disseram surpresos. Mas a reação mais forte veio de um ex-presidente famoso por pegar leve com os adversários políticos.

Abre Aspas

“Eu não ia voltar ao tema, mas o presidente da República repetiu opiniões desastradas sobre a pandemia. O momento é grave, não cabe politizar, mas opor-se aos infectologistas passa dos limites. Se não calar, estará preparando o fim. E é melhor o dele que de todo o povo. Melhor é que se emende e cale.”

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente, mandando um “¿por qué no te callas?” ao Hugo Chávez da direita brasileira.

O dia seguinte

Na manhã de hoje, João Doria e Jair Bolsonaro bateram boca na reunião em que o presidente da República atendeu virtualmente os governadores do Sudeste. Ronaldo Caiado, médico e governador de Goiás, decidiu romper publicamente e não mais respeitar as decisões presidenciais – não sem antes conversar com o ministro da Saúde, claro.

Queda?!

Nas redes sociais, chegaram a espalhar que a queda de Luiz Henrique Mandetta já havia corrido nos bastidores. Oficialmente, no entanto, o ministro da Saúde não iria se demitir, mas também não pretendia seguir as instruções insanas de Bolsonaro. Com dois interessados no cargo (Antônio Barra Torres, diretor da Anvisa, e Osmar Terra, ex-ministro da Cidadania), a solução foi modular o discurso de forma a concordar e ignorar o presidente simultaneamente.

Mais rápido

Enquanto o presidente da República e seu entorno mais sociopata criava graves obstáculos a quem combate seriamente o avanço da covid-19, a pandemia avançava nas três maiores cidades do país mais rápido do que o previsto.

Desenhou

Curtas

  1. Com 2.433 casos confirmados (e subnotificados), a “gripezinha” de Jair Bolsonaro matou 57 brasileiros em apenas nove dias.
  2. Jair Bolsonaro poderia ter usado o pronunciamento de ontem para dizer que serão distribuídos R$ 36 bilhões em auxílios aos funcionários suspensos por causa da covid-19, mas essa nunca foi a intenção do presidente.
  3. A polêmica medida provisória, contudo, só garante o emprego das vítimas de covid-19 se elas comprovarem que ficaram doentes no local de trabalho.
  4. O presidente segue argumentando que não precisa mostrar ao público o exame que teria dado negativo para o novo coronavírus, mas a Secretaria de Saúde do Distrito Federal já sabe a verdade.
  5. Mesmo com Ricardo Salles pedindo desculpas por espalhar desinformação contra Drauzio Varella, o Twitter deixou o perfil do ministro do Meio Ambiente e do senador Flávio Bolsonaro de castigo por doze horas – o que é um começo.
  6. Ainda uma incógnita, Hamilton Mourão retirou dezenas de jornalistas da quarentena apenas para anunciar que falaria por vídeo, mas chegou a responder que “a posição do governo ‘é uma só’: o isolamento e o distanciamento social“.
  7. Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro, chegou a anunciar que abrandaria o confinamento na capital carioca, mas o governador Wilson Witzel, governador do estado, já avisou que não vai deixar.
  8. Segundo a Moody’s, o PIB brasileiro deve encolher 1,6% este ano.
  9. A embaixada dos Estados Unidos tem recomendado aos americanos que se encontram no Brasil que deixem o país o quantos antes – o que é assustador para quem ficará.
  10. Um dos tristes efeitos colaterais do confinamento no Rio de Janeiro é o aumento assustador dos casos de violência doméstica.

Vale Seguir

O Ensina, Ulysses costuma lembrar aos brasileiros que o Brasil ainda tem uma Constituição Federal.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BR Político, Correio Braziliense, Crusoé, Época, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, IstoÉ, Metrópoles, O Antagonista, O Globo, R7, The Intercept Brasil, UOL e Veja.

Jair Bolsonaro

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 24 de março de 2020 em Brasília, Distrito Federal. Nela, Jair Bolsonaro grava o polêmico pronunciamento exibido em Rede Nacional de Rádio e Televisão.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque o sanatório geral vai passar.

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