Grande História

O Palácio do Planalto articulou projeto do juiz que salvou Bolsonaro da apresentação do exame

24.04.2020 - Brasília/DF - Encontro com Deputado Vitor Hugo (PSL/GO), Líder do Governo na Câmara dos Deputados e deputados no Palácio da Alvorada.

A publicidade no jogo do bicho, a relação com as milícias, a legalização da grilagem, a crise dos cartões corporativos, e muito mais.

Em apenas 49 dias, um site com resultados do jogo do bicho exibiu exatos 319.092 anúncios pagos pelo governo Bolsonaro. Mas essa não é a primeira vez que o sobrenome da família presidencial divide o noticiário com o jogo de azar. Adriano da Nóbrega, miliciano morto em fevereiro cujas esposa e mãe recebiam salário do gabinete de Flávio Bolsonaro, trabalhava para um bicheiro quando, nos anos 2000, passou a receber elogios públicos do pai do senador.

Em meados de 2019, o presidente da República tentou trocar o delegado que fiscalizava o Porto de Itaguaí, uma região fluminense dominada por milícias. Este ano, Bolsonaro revogou uma tentativa de dificultar o desvio de armas de quartéis para fações criminosas, clubes de tiro e… Milícias.

Sabe-se que grilagem é a principal fonte de renda dos milicianos cariocas. E que o presidente da República editou uma medida provisória que beneficia grileiros. Mas a usurpação de terra pública não é prática exclusiva das máfias fluminenses. Na Amazônia, por exemplo, a vista grossa do Governo Federal permitiu que 94% da terra indígena mais desmatada dos país fosse retalhada por fazendeiros. Não por acaso, oito ex-ministros do Meio Ambiente assinaram uma carta pedindo para que Rodrigo Maia não coloque a “MP da Grilagem” em votação.

Vale a pena criticar de novo

Como se tivesse a certeza de que os dias estão contados, o bolsolavismo avança sobre a coisa pública em ritmo de arrastão. Na crise mais recente, um escândalo antigo voltou à superfície. A imprensa percebeu que o mesmo Jair Bolsonaro que desliga o aquecimento da piscina, come pão com leite condensado e usa caneta barata, gasta mais de R$ 700 mil por mês com cartão corporativo — superando Michel Temer e Dilma Rousseff.

Falta o resto

As despesas sigilosas dobraram no verão em que Carlos Bolsonaro se mudou para o Palácio do Planalto, e bots emplacaram seguidas hashtags governistas nas redes sociais. O presidente explicou que por volta de R$ 740 mil foram investidos no resgate de brasileiros que fugiam do novo coronavírus na China. Falta ainda esclarecer o destino dos outros R$ 3 milhões.

Não se importou

A desfaçatez é tamanha que, como se este não fosse um problema que derrubou até ministra do governo Lula, Bolsonaro tratou como implicância da imprensa a crise com os gastos sigilosos. Dando de ombros para as críticas, e para a promessa eleitoreira de acabar com a reeleição, garantiu que só sai do governo em janeiro de 2027, ao final de um eventual segundo mandato.

Noronhe-se

Jair Bolsonaro deve estar feliz com a aproximação de João Otávio de Noronha, uma relação que, conforme definiu o presidente República no final de abril, foi “amor à primeira vista“. Nove dias depois, no episódio em que sonegam ao público o exame negativo para covid-19, o presidente do STJ vinha a público antecipar um posicionamento favorável à defesa. No dia seguinte, a AGU recorreu ao dito cujo. E o pedido foi atendido na noite da própria sexta-feira.

O preço

Nesta semana, a Câmara dos Deputados deve votar a criação do Tribunal Regional Federal de Minas Gerais, uma projeto que tramita desde 2013 e pouco tem a ver com as necessidades da pandemia em curso. Quem é o autor do projeto? O mesmo Noronha que livrou Bolsonaro de apresentar o laudo negativo para covid-19. Quem costurou a votação para esta semana? O mesmo Bolsonaro que teve a pele salva na sexta-feira por Noronha.

Campanha contra o isolamento

Na quinta-feira, Bolsonaro foi também beneficiado por Luís Roberto Barroso, que, sob a garantia de que a União “não pretende deflagar a campanha“, extinguiu duas ações contra “O Brasil Não Pode Parar“. No dia seguinte, o perfil do presidente deu início a uma série de postagens sobre atividades do governo durante a pandemia. Em todos, o mesmo lema em destaque: “O Brasil não pode parar“.

Churrasco fúnebre

Mas Bolsonaro não consegue vencer todas as crises, ainda que tente se safar inventando que as imagens dele próprio verbalizando a sandice não passavam de fake news. O churrasco agendado para sábado foi cancelado após receber uma enxurrada de críticas. Naquele dia, o Brasil superaria a marca de dez mil vítimas fatais de covid-19.

Crise de lancha?

Em vez do luto, o presidente vestiu um colete salva vidas, e se deu a passear de jet ski pelo lago Paranoá. No caminho, encontraria simpatizantes que reclamariam do isolamento social enquanto degustavam um saboroso churrasco preparado na própria lancha. Nas redes sociais, o mesmo Fernando Collor de Mello que, antes de ser afastado por um processo de impeachment, também curtia ser fotografado sobre um jet ski comentou: “Se continuar assim, vai afundar!

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: CNN Brasil, Crusoé, Economist, El País, Época, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, Jota, Nexo Jornal, O Antagonista, O Globo, Reuters, UOL, Valor Econômico e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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