Grande História

A pandemia não é desculpa para os erros do governo Bolsonaro

10.06.2020 - Brasília/DF - Jair Bolsonaro e Paulo Guedes participam de videoconferência. Foto: Isac Nóbrega/PR

Guedices, promessas não cumpridas, voo de galinha, o estrago na imagem do Brasil lá fora, uma retomada que nunca vem, e muito mais.

Ontem, em entrevista sobre a retomada em um “Brasil Pós-Pandemia“, Paulo Guedes disse que, se o Plano Real fosse mesmo tão extraordinário, o PSDB não teria perdido “quatro eleições seguidas“. Mas, por óbvio, era só mais uma “guedice”.

O “superministro” da Economia apostava que o brasileiro já não lembra que o tal plano resultou de imediato nas duas únicas eleições presidenciais vencidas em primeiro turno. Ou que Lula só venceu a seguinte ao se comprometer por escrito com a política econômica adotada ainda no governo Itamar. Ou mesmo que, há apenas seis dias, aos cuidados do próprio Guedes, o Real fechou o semestre como a segunda moeda que mais se desvalorizou em todo o mundo — ficando atrás apenas do bolívar venezuelano.

Voo de galinha

É sintomático que, como exemplo do que teria chutado o PSDB da Presidência da República, o ministro comece citando a alta taxa de juros praticada no governo tucano. Na reunião ministerial de 22 de abril, argumentando que o governo Bolsonaro desalavancou bancos públicos, reduziu o endividamento, baixou juros e reformou a Previdência, o ministro insistia que “o Brasil ia começar a voar” quando a decolagem findou abortada pela covid-19.

Vale, contudo, revisitar os fatos

O país praticava juros altos para que uma economia tão problemática soasse minimamente interessante a investidores estrangeiros. Como consequência, a cotação do dólar se mantinha relativamente baixa. Mas, até o início do governo Bolsonaro, havia a promessa de que uma reforma na Previdência serviria não só para atrair dólares ao Brasil, como para o PIB decolar a um nível que não se observava desde 2013.

A prometida retomada

Como o próprio Guedes enumerou na polêmica reunião ministerial, o governo Bolsonaro, ainda no ano passado, adiantou a parte mais difícil da tarefa de casa. Mas, à meia noite de 31 de dezembro de 2019 —portanto, bem antes de o novo coronavírus rodar o mundo—, o PIB brasileiro sofria o menor crescimento dos últimos três anos.

Mas, mas, mas…

Em paralelo, o Real surgia como a nona mais desvalorizada dentre 44 moedas. E isso ocorria antes de a cotação do dólar, em situação bem mais dramática que a de nações até então mais afetadas pelo Sars-CoV-2, iniciar uma jornada que a aproximaria dos seis reais em maio.

Mistério

O que aconteceu? O investidor estrangeiro não ficou sabendo que o governo Bolsonaro desalavancou bancos públicos, reduziu o endividamento, reformou a Previdência e passou a trabalhar com juro real negativo? Ou planilha não é tudo nem mesmo quando se trata de política econômica?

Perguntar ofende?

Será que o investidor estrangeiro ficou sabendo que o presidente brasileiro foi quem mais tentou seguidamente sabotar a própria reforma da Previdência? Qual iludido investiria num país que, desde 2019, interrompeu a prometida agenda de reformas? Que estabilidade pode se esperar de uma economia sob a constante ameaça de golpe da parte de um força política que legou hiperinflação, dívida externa e uma infraestrutura sucateada após 21 anos de ditadura militar?

Ofender ofende?

Quem se dedicaria a um país cujo governante ignora toda uma tradição diplomática para se agarrar a um presidente americano que vive o pior momento na busca pela reeleição? Quem assumiria riscos numa pátria governada por um grupo político que orquestra ataques contra o principal parceiro comercial? Quem investiria numa nação ciente de que o Parlamento Europeu já percebeu que, por aqui, a pasta dedicada ao assunto trabalha justamente contra o meio ambiente, o que fatalmente resultará em sanções comerciais?

Crise de credibilidade

Quem confiaria em um líder que se tornou exemplo de mentira até para o CEO da rede social que mais ficou marcada pela desinformação que ajudou a espalhar? Um líder que nem em Nova York, onde fica a sede da ONU, consegue ser bem-vindo? Um líder que virou piada nos EUA, México, Portugal, Alemanha… Que confiança haveria na palavra de um governo que descaradamente tentou ocultar dados relevantes sobre a pandemia em curso?

Loucura, loucura!

Quem investiria num país que desenvolve o pior trabalho no combate ao novo coronavírus, ou seja, o pior trabalho no combate àquilo que mais prejudica a economia em todo o mundo? Quem investiria num país visto até pelo insano presidente americano como um péssimo exemplo a ser seguido? Saber por um Nobel da Paz que Jair Bolsonaro comete loucuras durante a maior emergência sanitária em um século não faz um estrangeiro refugar da ideia gastar as próprias economias no Brasil? Quem viajaria para esse país? Quando esse país voltará a despertar o interesse de turistas de todo o mundo?

Tragédia histórica

Quem toparia fazer com que a própria marca soasse conivente com uma tragédia que certamente será estudada a fundo pelos historiadores do futuro? Quem perderia tempo com um país que, segundo a imprensa mais séria do planeta, está sendo conduzido pelo próprio presidente a um desastre? Ou pior: quem investiria num país em que o desastre já está consolidado? Um país em que a economia entrou em recessão antes mesmo de a covid-19 fazer a ducentésima vítima fatal?

Alguns exemplos

As consequências de tanta sandice são conhecidas, ainda que sem a devida ênfase. Em janeiro, por exemplo, Guedes voltou de Davos incomodado com a forma como a política ambiental —não por falta de aviso— se provou um obstáculo para que fundos globais de investimentos aportassem no Brasil. A pandemia engatinhava, mas os estrangeiros, só no primeiro trimestre, retiraram da Bolsa brasileira o que nunca tinham retirado por todo um ano. Ontem mesmo, chegou a seis o total de frigoríficos nacionais dos quais a China suspendeu a importação de carne por receio do que a covid-19 faz por aqui.

10/10

Diante do cenário aqui desenhado, era para dez em dez analistas chutarem o governo Bolsonaro como o governo Bolsonaro chuta o bom senso. Mas a menor taxa de juros de todos os tempos fez o investidor brasileiro transferir a própria carteira dos bancos tradicionais para fintechs. E, aparentemente, faz parte do modelo de negócio das fintechs se associar de veículos de imprensa que passam por dificuldades financeiras.

Coincidências

Coincidentemente ou não, nota-se em boa parte dos cadernos econômicos uma boa vontade com o governo Bolsonaro que inexistiu nas gestões petistas, ou mesmo no governo Temer. Coincidentemente ou não, é justo de “grandes” nomes do Mercado que mais vem pressão pela reabertura econômica no tal “Brasil Pós-Pandemia”, aquele que segue impossível de se enxergar sem um binóculo potente.

Restabelecendo a verdade

Por obra de um vírus, a humanidade vive um de seus piores momentos. No Brasil, contudo, a covid-19 cumpre também a função de servir de desculpa para a incompetência do pior presidente que o eleitor foi capaz de escolher. Que o drama do, até aqui, milhão e meio de brasileiros vitimados pela doença não deixe que a desculpa cole.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BBC, CNN Brasil, Correio Braziliense, Estadão, Exame, Financial Times, Folha de S.Paulo, G1, Huff Post Brasil, O Antagonista, O Globo, Reuters, Telegraph, Terra, The Guardian, UOL, Valor Econômico, Veja e Washington Post.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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