Grande História

Pode morrer 12 vezes mais brasileiros com o modelo de Bolsonaro

13.03.2020 - Brasília/DF - Jair Bolsonaro cumprimenta populares no Palácio da Alvorada.

A reação de Mandetta, o passeio criminoso de Bolsonaro, a pressão do mercado contra o confinamento, os linchamentos virtuais, e muito mais.

Luiz Henrique Mandetta tentou emparedar Jair Bolsonaro. O ministro da Saúde perguntou se “estamos preparados para ver caminhões do Exército transportando corpos“; prometeu que, enquanto for ministro, irá contrariar qualquer ordem não baseada em dados técnicos; e sentenciou que os manifestantes que participarem de carreatas contra o confinamento entrarão em quarentena em até duas semanas. Ao mesmo tempo, faltou a uma reunião de 50 ministros da Saúde com a Organização Mundial de Saúde, e pagou pedágio ao chefe ao chamar de sórdida a imprensa, o que rendeu uma resposta firme do jornalismo da Rede Globo.

O pedido era para que o presidente da República não menosprezasse a gravidade da situação. Menos de 24 horas depois, em passeio pelo Distrito Federal, Jair Bolsonaro retomou a sabotagem pública do trabalho do Ministério da Saúde. Nos bastidores, já havia esvaziado o Comitê de Crise para Supervisão e Monitoramento dos Impactos da Covid-19, e bombardeado o WhatsApp de aliados com ataques às medidas defendidas pelas principais autoridades no assunto. Em paralelo, carreatas inexpressivas em algumas cidades do país pregavam contra o confinamento. O presidente não escondeu nem o desejo de, sem qualquer estudo, baixar um decreto liberando a atividade de serviços não essenciais.

O mercado não cuida

Em Brasília, nem a bancada da segurança pública concorda com a conduta de Jair Bolsonaro. Alguns parlamentares interpretaram o passeio presidencial como uma afronta ao trabalho de Mandetta. Já se sabe que a postura do presidente nasceu da pressão de alguns empresários. Luciano Hang, das lojas Havan, é um boi devidamente nomeado. Robson Andrade, presidente da CNI que adquiriu covid-19 ao viajar para os Estados Unidos com a comitiva presidencial, defende a aplicação do tal “isolamento vertical“, aquele que foi proposto sem qualquer fundamento científico. Um grupo de varejistas, inclusive, ameaça demitir 600 mil funcionários caso o isolamento não seja suspenso.

Usina de desinformação

Nas redes sociais, e especialmente no WhatsApp, a máquina de desinformação do presidente da República foi acionada em potência máxima. O próprio Zero Um compartilhou uma foto falsa sobre uma cura do novo coronavírus. Milicianos digitais deturparam a forma como um decreto de João Doria estabelecia que fossem registrados os óbitos por covid-19. Vários perfis chegaram a compartilhar a mesma história mentirosa sobre um porteiro que teria morrido não por obra da pandemia, mas de um acidente. Até o Twitter, que vinha sendo complacente com tanto linchamento virtual, achou que limites foram ultrapassados e apagou duas postagens do presidente da República – algo que até então só havia se voltado contra tiranos como Nicolás Maduro e Ali Khamenei.

Freios

O judiciário alterna bons e maus momentos. Se, por um lado, proíbe Jair Bolsonaro de adotar medidas que contrariem o isolamento, por outro, flexibiliza a Lei de Responsabilidade Fiscal, instrumento criado justamente para evitar que, em momentos como esse, os gestores públicos cometam excessos. Enquanto a Justiça Federal suspendia a medida presidencial que incluiu igrejas e casas lotéricas como “serviços essenciais“, a Procuradoria-geral da República arquivava recomendação de cinco subprocuradores para que Bolsonaro trabalhasse em sintonia com a OMS. No Rio de Janeiro, uma juíza federal de plantão suspendeu a campanha contra o confinamento que a SECOM preparava (e apagou das redes sociais). Em Brasília, a PGR indeferiu o pedido de 18 membros da cúpula do MPF para que Augusto Ares exigisse de Jair Bolsonaro o respeito às normas de combate ao coronavírus.

Contrapesos

Por ora, sabe-se que o um procurador de São João do Meriti, no Rio de Janeiro, peticionou na Justiça para que a União (ou seja, o povo brasileiro) pague R$ 100 mil de multa pelo passeio irresponsável do presidente da República. E que sete partidos de oposição (PT, PDT, PSB, PCdoB, PSOL, Rede e PCB) decidiram entrar com uma notícia crime contra Jair Bolsonaro por colocar em risco a saúde da população.

Narrativas frágeis

No entanto, as narrativas presidenciais não resistem aos fatos. Por exemplo, a covid-19 já matou um jovem saudável de 26 anos em São Paulo. Apontada como um remédio que obraria milagres, a cloroquina não foi capaz de salvar a primeira vítima fatal da Bahia. Há evidências de que o confinamento, ainda que no longo prazo, é melhor para a economia. Não à toa, a OCDE pede que o Governo Bolsonaro “assuma firmemente a dianteira” do combate ao novo coronavírus.

Doze vezes

As opções ficam claras quando se escuta não um presidente populista que se aconselha com os próprios filhos, mas pessoas que de fato entendem do assunto. De 41 economistas ouvidos pelo IGM Forum, exatamente nenhum discorda que “uma resposta política ao novo coronavírus envolverá a tolerância de uma contração enorme na atividade econômica até que a propagação de infecções tenha caído significativamente“. Segundo pesquisa do Grupo de Resposta à Covid-19 do Imperial College de Londres, o modelo defendido por Bolsonaro pode levar a óbito doze vezes mais gente do que o método criticado pelo presidente, fazendo com que a morte chegue mais cedo a mais de meio milhão de brasileiros.

Desenhou

Curtas

  1. Antes do passeio criminoso do domingo, Jair Bolsonaro, que disse esconder o laudo negativo para covid-19 por ter usado um condinome, visitou um hospital em Brasília e, claro, não deu qualquer explicação.
  2. Segundo a deputada federal Tabata Amaral, se o presidente fosse realmente a favor da renda básica emergencial como agora alega ser, teria facilitado a tramitação do projeto apresentando uma medida provisória.
  3. O governo Bolsonaro está aproveitando a distração com a pandemia para remover e reassentar famílias quilombolas no Maranhão.
  4. Os governadores já adiantaram que não irão tolerar decretos de Bolsonaro contra o isolamento – os do Nordeste, inclusive, prometeram seguir orientados pela ciência.
  5. Ciência esta que vem buscando desenvolver na UFRJ e USP ventiladores pulmonares cruciais para tratar casos graves de covid-19.
  6. Se o clamor pelo impeachment de Bolsonaro ainda não deu no New York Times, já deu no Washington Post.
  7. Por aqui, enquanto o PT busca ser a oposição responsável que nunca foi, Ciro Gomes, Fernando Haddad e Guilherme Boulos chegaram ao consenso de que Jair Bolsonaro deveria renunciar.
  8. O imbróglio envolvendo Gabriela Prioli, a mais grata surpresa da CNN Brasil, envolveu até graves ameaças nas redes sociais, algo típico da militância governista.
  9. Diferente da família Bolsonaro, até Donald Trump já reconheceu que não é uma questão econômica, mas de vida ou morte.
  10. A família Bolsonaro, no entanto, deve estar mais interessada no exemplo de Viktor Orbán que, como uma gripe oportunista, aproveitou a pandemia para concentrar ainda mais poder na Hungria – e, a depender da análise, dar fim à democracia local.

Abre Aspas

“Uma é a preparação de um hospital para cuidar de doentes, atividade essencial e responsável; a outra é a mais pura irresponsabilidade sanitária e política.”

Pablo Ortellado, professor da USP, explicando a Eduardo Bolsonaro a diferença entre o passeio do pai do deputado e o passei de Bruno covas e João Doria.

Um Pio (ou dois)

Vale Seguir

Vera Magalhães, o terror da família Bolsonaro.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: CNN Brasil, DW, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, G1, Infomoney, O Globo, Terra, UOL, Valor Econômico, Veja e Washington Post.

13.03.2020 - Brasília/DF - Jair Bolsonaro cumprimenta populares no Palácio da Alvorada.

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 13 de março de 2020 por Fabio Rodrigues Pozzebom, fotógrafo da Agência Brasil, em Brasília, Distrito Federal. Nela, Jair Bolsonaro, cumprimenta populares no Palácio da Alvorada.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque fascismo deixa gente ignorante fascinada.

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