Grande História

Qual é a dos militares?

24/01/2020 - Brasília/DF - O Presidente em exercício Hamilton Mourão fala à imprensa. Foto: José Cruz/Agência

A lamentável mensagem de Mourão, o apoio das Forças Armadas a Bolsonaro, o choro do presidente, os movimentos pelo impeachment, e muito mais.

Por duas semanas, Jair Bolsonaro tem sido alvo diário de panelaços. Cada pancada na panela aproxima Hamilton Mourão da faixa presidencial. Para que o vice se torne a autoridade mais poderosa do país, basta aguardar que as forças políticas busquem a alternativa lógica. No entanto, o 31 de março de 2020 amanheceu com uma mensagem lamentável, para dizer o mínimo.

Ao exaltar o golpe de 1964, Mourão alinhou o discurso ao de Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa que emitiu um comunicado na véspera tratando o 31 de março como um “marco para a democracia brasileira” – o que só faz sentido na consciência de quem quer dormir sem o peso das 434 mortes da ditadura militar.

No noticiário, os sinais são conflitantes. Há apenas quatro dias, chegou à imprensa que representantes da Aeronáutica, Exército e Marinha sinalizaram ao vice que o apoiariam numa eventual queda do titular. Ontem, no entanto, foi noticiado que o núcleo fardado do Palácio do Planalto, sempre com receio de uma convulsão social que não veio nem na libertação de Lula, teria aderido ao discurso insano do presidente. Foi quando Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, usou as redes sociais para defender Bolsonaro. Não sem antes o presidente da República literalmente chorar diante de interlocutores palacianos nem tão íntimos assim.

Suicídio

É uma missão suicida. Segundo estimativa do Imperial College de Londres, o confinamento criticado pelo presidente resultaria em menos de 50 mil óbitos por covid-19 no Brasil. O isolamento vertical defendido pelo chefe do Executivo –e, agora, pela cúpula militar– ampliaria a carnificina para mais de meio milhão de mortes.

Afaste o presidente, salve vidas

Em outras palavras, Bolsonaro se porta de uma tal maneira que o afastamento do presidente pode ser lido como uma medida urgente para salvar vidas. Não faz sentido que militares tão temerosos de convulsão social queiram sair na foto quando faltar espaço para tanto corpo.

Grandes poderes

E não é como se o presidente da República fizesse por merecer mais um voto de confiança. Na tentativa de convencer a opinião pública de que a maior pandemia em um século não passaria de uma “gripezinha”, Bolsonaro continua mentindo descaradamente. O presidente só aderiu à renda básica emergencial quando percebeu a derrota que sofria para o Congresso. Enciumado do sucesso do ministro da Saúde, sabotou mais uma vez o trabalho da pasta colocando o general Braga Netto para ali, diante das câmeras, censurar o que Luiz Henrique Mandetta não poderia responder. Por fim, como se o Governo Federal fosse uma empresa familiar, entregou uma sala do Palácio do Planalto para Carlos Bolsonaro, o lunático vereador carioca, trabalhar.

Grandes responsabilidades

E não é como se as atitudes alopradas do presidente não tivessem consequências. Após os reclames presidenciais, os Correios têm cortado parte do salário dos funcionários que se encontram em quarentena. No Paraná, a exemplo do ocorrido em Roraima, quarenta e três cidades vão reabrir o comércio. Antonio Denarium, governador roraimense, recebeu de Bolsonaro a Ordem do Mérito Militar pela irresponsabilidade. Enquanto isso, o presidente segue devendo palavras de conforto às famílias das mais de duzentas vítimas fatais da covid-19 contabilizadas até o momento.

Ministros de oposição

A situação é bizarra de tal forma que Bolsonaro tem enfrentado oposição dos próprios ministros. Em especial, de Sergio Moro, a quem chamou no final de semana de egoísta por não defender as insanidades presidenciais. Em resposta, o ministro da Justiça formou um bloco de “oposição” com Paulo Guedes e Mandetta, e deixou claro em entrevista que “a responsabilidade primária em assuntos da saúde é do Ministério da Saúde“.

Debatendo “democracia”

Michel Temer, que havia conversado com o presidente da OAB sobre “democracia“, achou por bem aconselhar Bolsonaro a decretar “isolamento social” por dez dias. Mas isso foi na véspera de o presidente dar de ombros ao conselho e colocar a própria saúde (e a de terceiros) em risco passeando pelo Distrito Federal. Lula, que também andou conversando com a OAB sobre “democracia”, saiu do muro e já diz com todas as letras que Bolsonaro é o “epicentro da crise“. A OAB, que também conversou com José Sarney e FHC sobre “democracia”, “coincidentemente” está preparando um pedido de impeachment de Bolsonaro.

Pregou para convertidos?

Como diria Garrincha, falta ainda combinar com os russos. Ou melhor, com os militares que oficialmente exaltam o golpe de 1964, e apoiam nos bastidores uma potencial carnificina do povo brasileiro. Ao mesmo tempo, como se a mensagem fosse de consumo interno, meramente garantindo ao vice o apoio que pode faltar em qualquer desavença com o chefe, é de se estranhar a ausência de reações institucionais ao pio de Mourão.

Fool me twice, shame on me

Nada disso tem sido dito, nem nas entrelinhas. E pode nascer do desejo de a democracia resistir a um populista insano, ainda que pelas mãos dos militares. Mas, como não há data melhor para lembrar que o Brasil já cometeu esse erro, seria de bom tom que as instituições reagissem não só a Bolsonaro, mas também a Mourão. Afinal, não tem muito tempo, o general usava o microfone para defender intervenções militares.

Desenhou

Curtas

  1. Jair Bolsonaro, que jura ter sido eleito exclusivamente pela própria popularidade, estranhamente coloca a vida da população em risco por temer a perda de apoio dos empresários mais aloprados do país.
  2. Para surpresa de exatamente ninguém, o gabinete da Presidência da República não tem qualquer prova de fraude nas eleições de 2018.
  3. A pressão sobre Augusto Aras tem surtido efeito, e ele admite que pode ir à Justiça caso Bolsonaro assine decretos contra o confinamento – demorou.
  4. Espera-se, portanto, que o procurador-geral da República faça com a devida seriedade o parecer pedido por Marco Aurélio Mello sobre o afastamento de Bolsonaro.
  5. Despertando do sono profundo, o Ministério Público Federal também se esforça para que não passe impune a campanha “O Brasil não pode parar” tocada pela SECOM de Fabio Wajngarten.
  6. Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional que havia quebrado a quarentena por erro médico, publicou nas redes sociais o resultado negativo para covid-19 exibindo o próprio CPF para mais de 500 mil seguidores – descuido este corrigido no final da tarde.
  7. Como há males que vêm para o bem, a aloprada crise diplomática provocada por Eduardo Bolsonaro resultou na liberação da participação chinesa no fornecimento de redes 5G no Brasil.
  8. Essa coluna entende que a imprensa deveria boicotar os quebra-queixos de Jair Bolsonaro, mas compreende que há veículos governistas que não podem viver sem a humilhação diária de seus repórteres.
  9. O IPEA já antevê para 2020 uma recessão entre -0,4% e -1,8% – mas continua soando otimista.
  10. Até o Papa Franciscoentendeu que à saúde o que é da saúde, e à economia o que é da economia.

Abre Aspas

“Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo!”

Ulysses Guimarães, então presidente da Câmara Federal, ao promulgar a Constituição Federal de 1988.

Um Pio

Vale Seguir

No ar desde outubro de 1986, o Roda Viva soube envelhecer e marcar presença nas redes sociais. Ontem, ao ouvir o biólogo Átila Iamarino compartilhar um pouco do que sabe sobre o novo coronavírus, levou ao ar mais uma edição histórica que merece ser conferida na íntegra.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Agência Brasil, BBC, CNN Brasil, Congresso em Foco, Correio Braziliense, El País, Época, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, O Antagonista, O Globo, Veja e Vortex Media.

24/01/2020 - Brasília/DF - O Presidente em exercício Hamilton Mourão fala à imprensa. Foto: José Cruz/Agência

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 24 de janeiro de 2020 por José Cruz, fotógrafo da Agência Brasil, em Brasília, Distrito Federal. Nela, Hamilton Mourão fala à imprensa na condição de presidente em exercício.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque você vai pagar, e é dobrado, cada lágrima rolada nesse meu penar.

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