Grande História

Não dá para superar a crise econômica sem antes conter a covid-19

01.04.2020 - Brasília/DF - Coletiva de imprensa com o Presidente da República Jair Bolsonaro. e o ministro da economia Paulo Guedes no Planalto. Foto: Marcos Corrêa/PR

A recessão no horizonte, a longa retomada, o aumento da pobreza, a sabotagem presidencial, a prioridade à saúde, e muito mais.

Para a Instituição Fiscal Independente, só neste segundo trimestre, o recuo na atividade econômica do Brasil pode encostar nos 10 pontos percentuais. Ainda segundo a IFI, a dívida se aproximaria em 2020 de 90% do PIB. Superado o pico da pandemia, o Produto Interno Bruto terminaria o ano acumulando 5,5% de queda. Mas essa é a previsão otimista.

O Goldman Sachs revisou de -3,4% para -7,4% o tombo que o PIB brasileiro sofrerá este ano. Mais do que isso, calcula que seriam necessários 10 trimestres para o país se reerguer. Em outras palavras, que o primeiro (ou único) mandato de Jair Bolsonaro como presidente da República terá chegado ao fim antes de Paulo Guedes obrar o milagre de trazer a economia de volta aos trilhos.

Voo de galinha

Em abril, a demanda por voos domésticos enfrentou um assombroso recuo de 93,1% por aqui. E nem adianta planejar férias lá fora com dever de casa por fazer. Donald Trump já cogita banir viagens do Brasil para os Estados Unidos — e nada leva a crer que será o único a tomar medida tão drástica.

Extrema pobreza

Com 170 mil novos integrantes, a pobreza extrema agora atinge 13,8 milhões de brasileiros, ou 6,7% da população. Trata-se do grupo de indivíduos que precisa sobreviver com uma renda diária inferior a 1,90 dólar. Mas os dados são de 2019, o quinto ano consecutivo de alta. Neste período, a moeda brasileira ainda não era a que mais se desvalorizava no mundo, e o novo coronavírus era uma peste que importunava apenas morcegos chineses.

Linha de crédito

Ao sancionar o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte, Bolsonaro vetou a carência de oito meses para o pagamento do empréstimo, ou o Pronampe teria dificuldades na execução. Por causa da burocracia, de R$ 40 bilhões disponibilizados pelo BNDES para empresários quitarem despesas durante a pandemia, só R$ 1,6 bilhão foi liberado até o momento. Segundo estimativa do próprio banco, a quantia é suficiente para pagar o salário de apenas um milhão de trabalhadores.

Patriotismo industrial

A Confederação Nacional da Indústria já levou ao Ministério da Economia a proposta de uma campanha de estímulo à compra de produtos nacionais. A intenção é reprisar o sucesso da “Buy American”, iniciativa que ajudou a indústria americana a superar a crise de 2008.

Vetados

Notórios apoiadores de Bolsonaro desde a greve criminosa de 2018, os caminhoneiros não gostaram do veto presidencial que impediu o acesso da categoria ao auxílio emergencial. Segundo a Associação Brasileira dos Veículos Automotores, é possível realocar recursos para o pagamento dos R$ 600 a pelo menos os motoristas dos grupos de risco, ou àqueles vitimados pela covid19.

171%

O descaso com o meio ambiente vem se convertendo num dos principais obstáculos à entrada de investimento estrangeiro no Brasil. E o governo Bolsonaro parece nada ter aprendido com as crises de 2019. Só em abril, mesmo com isolamento social e pandemia colapsando as principais capitais da região, o desmatamento na Amazônia cresceu 171%, resultando no maior estrago em 10 anos. A floresta perdeu para os madeireiros uma área equivalente à da cidade de Porto Alegre.

Sabotando o isolamento

Por mais que a economia de fato enfrente um problema grave, nada poderia ou deveria atropelar os esforços para que vidas sejam salvas. A própria recuperação econômica é refém de uma gestão eficiente da crise sanitária. Contudo, conforme rasgado por Luiz Henrique Mandetta, a insistência de Bolsonaro em forçar a cloroquina como uma solução que inexiste faz parte do plano de antecipar uma reabertura econômica. Trata-se de um erro que, como se viu em toda tentativa semelhante no resto do mundo, custou vidas humanas, e aos milhares. Referendada por empresários aloprados, a sociopatia presidencial não poupa nem grávidas e crianças, ambas no alvo do novo protocolo do Ministério da Saúde para uso de medicamentotão polêmico.

Tudo tem seu tempo

Ontem, o Brasil se tornou o terceiro país com mais vítimas fatais de covid-19. Nas últimas duas semanas, só os americanos contabilizaram um número maior de infectados pelo novo coronavírus. Proporcionalmente, os Estados Unidos estão entre as dez nações que mais reservaram recursos para conter a pandemia. A lista conta também com Japão, Irã e Suécia, todos exemplos de economias que tentaram atropelar as necessidades sanitárias, mas hoje pagam caro pelo erro.

Lá fora

Agora, foi a vez de a imprensa francesa constatar que o presidente brasileiro provoca “caos na saúde e semeia a morte“. No outro lado do planeta, Jacinda Ardern se tornou na Nova Zelândia a primeira-ministra mais popular dos últimos cem anos. Lá, o novo coronavírus matou apenas 21 pessoas. Por aqui, mesmo considerada a diferença do tamanho da população, tem morrido 19 vezes mais gente.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Época, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, O Dia, Poder 360, Reuters, UOL, Valor Econômico e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Click to comment

You must be logged in to post a comment Login

Leave a Reply

To Top