Grande História

Maia, Davi, Toffoli e Aras: a história não esquecerá os omissos

26.09.2019 - Brasília/DF - Solenidade de posse do Procurador-Geral da República, Augusto Aras. Foto: Isac Nobrega/PR

O bom exemplo argentino, o péssimo exemplo brasileiro, o recorde de insensibilidade, as previsões de Guedes, e muito m

Com a esquerda no poder, quem reclama do isolamento social na Argentina é a oposição. Mas Alberto Fernández tem um ótimo argumento para defender a política adotada pelo próprio governo: enquanto a covid-19 matou menos de 300 argentinos, no país em que Jair Bolsonaro encampa o discurso dos empresários mais aloprados, o total de vítimas fatais já supera as 9 mil.

O novo coronavírus chegou ao vizinho do sul com 6 dias de atraso em relação ao Brasil. E, claro, qualquer comparação precisa considerar que a população brasileira é quase cinco vezes maior. Mas mesmo um cálculo proporcional encontra realidades bem distintas. A Argentina chegou ao 65º dia de pandemia com 0,614 mortos por cem mil habitantes. Por aqui, a mesma taxa concluiu igual período com 2,867 óbitos, uma tragédia 367% maior.

Colocando em proporção

Se o governo Bolsonaro estivesse atingindo resultados semelhantes ao kirchnerista, o Brasil teria encerrado o dia de ontem com 6.749 mortes a menos. Para se ter uma dimensão disso, é um número maior do que o total de baixas brasileiras na Revolução Constitucionalista de 1932 e na Segunda Guerra Mundial somadas! Com o agravante de que o pico da crise atual ainda está para ser conhecido.

Recorde de insensibilidade

Contudo, após o Brasil quebrar o próprio recorde de confirmação de óbitos por covid-19 em um único dia, Bolsonaro levou ao STF um grupo de representantes da indústria que, em uníssono, pressionaram Dias Toffoli para que possam reaquecer a economia rompendo o isolamento social. Na fala mais insensível, um dos integrantes reclamou que “haverá morte de CNPJ“.

Estamos surpreendendo

É irônico que o apelo em visita não agendada ao Supremo tenha ocorrido sob a coordenação de Paulo Guedes, o ministro da Economia que ainda ontem viu o desejado congelamento de salário dos servidores cair por ordem direta do presidente da República. Há exatos 17 dias, o Posto Ipiranga prometia que a retomada econômica após a pandemia ocorreria em “V” de “vamos surpreender o mundo“. Hoje, o Chicago boy reclamou que a economia brasileira já está colapsando.

Questão de princípios

O governo Bolsonaro poderia partir do princípio de que a recessão é inevitável, e que o importante é salvar vidas. É a postura da lideranças mais elogiadas hoje no mundo. No entanto, o presidente da República assume que inevitável é o alto número de mortes, e seria necessário priorizar o socorro à economia.

Não faltou aviso

É um erro que, essa coluna vem mostrando, Santa Catarina cometeu. Após a reabertura do comércio, os casos de covid-19 mais que triplicaram. Um estudo feito por pesquisadores de quatro universidades especula que a situação por lá possa estar fora de controle. Resultado: foi entregue um pedido de impeachment de Carlos Moisés, governador eleito pelo mesmo PSL que levou Bolsonaro ao Palácio do Planalto. No Amazonas, onde a saúde pública primeiro colapsou, o processo já foi aberto pela Assembleia Legislativa, e pode derrubar de uma só vez o governador Wilson Lima, do PSC, e o vice-governador Carlos Almeida, do PTB.

Lavando as mãos

Rodrigo Maia, no entanto, reforçou a Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos, respectivamente chefe da Casa Civil e secretário de Governo, que não abrirá qualquer processo de impeachment de Bolsonaro. Nem irá instaurar uma CPI que apure as denúncias feitas por Sergio Moro. A promessa retribuía a garantia de que não há chance de as Forças Armadas apoiarem um golpe contra o Congresso e STF, como exigem as manifestações das quais Bolsonaro participa.

Heleno não garantiu

Só ontem perceberam que Augusto Heleno, que não aparece na notícia endossando a garantia democrática, havia delegado a Alexandre Ramagem, o fantoche de Carlos Bolsonaro na ABIN, uma série de atribuições especiais, o que tornou a agência de espionagem mais livre para trabalhar as insanidades do Zero Dois. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, Tácio Muzzi, nomeado pelo fantoche do fantoche de Carluxo, terá poderes sobre cinco casos de interesse direto de Bolsonaro.

Vai ou não

Ontem, vazou que Augusto Aras concordava que não seria possível denunciar Bolsonaro pelo depoimento dado por Moro à PF. Hoje, o procurador-geral da República reclamou das insinuações de que, por uma vaga no STF, topa engavetar qualquer coisa. E alertou que ainda seria cedo para se tirar conclusões – ou exatamente o que se reclamava dele ontem.

Obstrução

Afinal, o planalto vem dificultando a entrega da principal prova apontada por Moro. Há versões contraditórias sobre o paradeiro do vídeo. Há quem diga que o original já teria sido deletado, mas se sabe que a Secretaria de Comunicação guarda cópias das reuniões ministeriais. Se o Planalto não entregar a íntegra solicitada por Celso de Mello, há o risco de enfrentar uma ordem de busca e apreensão. Como alternativa, a AGU vem tentando entregar apenas o trecho em que o ex-ministro da Justiça é contrariado pelo presidente da República.

Bacia de sangue

Um estudo da UERJ percebeu que a pandemia tem mais que dobrado os casos de ansiedade e estresse, e provocado no Brasil um salto de 90% nos de depressão. Não se deve descartar o peso de um governo em eterna crise nesse ataque à saúde mental. Isso ficou evidente no suicídio do ator Flávio Migliaccio. Não à toa, Lima Duarte homenageou o colega de profissão ressaltando que “os que lavam as mãos, o fazem numa bacia de sangue”. Todavia, faltou lembrar que a história, assim como não esqueceu o que Pôncio Pilatos fez, não há de ignorar o papelão dos omissos citados mais acima.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BR Político, Crusoé, El País, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, IstoÉ, Metrópoles, ND+, O Antagonista, O Globo, R7, UOL e Vortex Media.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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