Grande História

Moro economiza, mas confirma a interferência de Bolsonaro na PF

05.02.2020 - Brasília/DF - Reunião de Jair Bolsonaro com Sergio Moro e secretários. Foto: Marcos Corrêa/PR

A tentativa de distração, o ataque à imprensa, a queda das narrativas, a íntegra do depoimento de Moro, e muito mais.

Ontem, enquanto o Brasil ainda digeria mais uma participação do presidente da República em manifestações golpistas, Jair Bolsonaro se encontrava fora da agenda com Sebastião Curió Rodrigues de Moura. Em 2009, o próprio Major Curió apresentou documentos sobre 41 guerrilheiros que, mesmo rendidos, foram executados pelo Exército na ditadura militar. Denunciado meia dúzia de vezes pela participação nos assassinatos, o tenente-coronel reformado chegou aos 85 anos blindado pela Lei de Anistia. Sobre o encontro em Brasília, um dos filhos de Curió comentou nas redes sociais: “dia de dois amigos se encontrarem e dizer FORÇA“.

Era, claro, mais uma provocação para desviar o foco. Pois a imprensa tem dado destaque à interferência do presidente no trabalho da Polícia Federal, em especial, no Rio de Janeiro, domicílio eleitoral da família Bolsonaro. Encurralado, o presidente recorreu ao chilique. Mais uma vez xingou a Folha de S.Paulo, mandou os jornalistas presentes calarem a boca, e alegou não ter qualquer filho investigado pela corporação. No instante seguinte, a mesma Folha fez questão de lembrar que Carlos e Eduardo Bolsonaro estão no alvo do inquérito tocado pelo STF.

Sob Valeixo

Vale ainda lembrar que Flávio Bolsonaro é atingido por dois inquéritos da PF fluminense. Contudo, o que apura o depoimento do porteiro no caso Marielle Franco caminha para não indiciar o senador. O outro, trabalhado durante a gestão de Maurício Valeixo, cuja queda motivou a demissão de Sergio Moro, investigava o Zero Um por lavagem de dinheiro e falsidade ideológica, mas foi encerrado sem nem mesmo quebrar os sigilos fiscal e bancário do filho do presidente. Erick Blatt, delegado responsável pelo arquivamento, conhece os Bolsonaros há sete anos, e já buscou o apoio da família em 2016 quando ironicamente os envolvidos tinham interesse em aprovar uma PEC garantindo autonomia total da PF.

Sob Celso

O próprio patriarca está sendo investigado com base nas acusações de Moro. Tanto que o presidente ordenou Augusto Heleno, Braga Netto e Eduardo Ramos, testemunhas dos desmandos presidenciais, a evitar declarações sobre o assunto. Foi além e, dizendo se tratar de um screenshot publicado por O Antagonista, tachou de “fofoca” a primeira prova apresentada pelo ex-ministro. Contudo, exibiu num cartaz uma imagem distinta da veiculada no Jornal Nacional. Na mais recente, o “mais um motivo para a troca”, trecho que incrimina o presidente, surge alinhado à direita, comprovando que a imagem foi capturada não na conta WhatsApp do ex-juiz federal, mas na do próprio presidente da República.

Narrativa governista

Ainda ontem, Moro pediu ao Supremo para que o depoimento concedido no final de semana se tornasse público, o que se concretizou na tarde de hoje. Alguns investigadores plantaram na imprensa amiga que o conteúdo não seria forte o suficiente para derrubar um presidente da República. E especularam que o ex-ministro não se aprofundou na relação com Bolsonaro, ou poderia também se complicar na Justiça.

Déjà vu

De fato, a íntegra do depoimento meramente oficializa o que já havia sido apresentado quando da demissão do ex-ministro. Moro evita dizer que Bolsonaro cometeu crimes, mas narra que foi bem sucedido em crises passadas ao evitar a demissão de Valeixo, aponta testemunhas, lista outros dois nomes próximos e desqualificados que o presidente tentou emplacar no comando da PF, e desmonta os argumentos usados para justificar a troca de comando da corporação.

A trama se adensa

Mas, em dado momento, citado de memória pelo depoente, Bolsonaro surge reclamando que o então ministro da Justiça “tem 27 Superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro“. Mais recentemente, o presidente também demonstra interesse na de Pernambuco, o que foi visto pela ex-aliada Joice Hasselmann como uma tentativa de atingir o desafeto Luciano Bivar. No trecho mais complicado, Augusto Heleno é citado como um ministro consciente dos verdadeiros planos do presidente da República.

Tréplica

Ao final da tarde, Bolsonaro protagonizou mais um pronunciamento confuso, no qual se contradisse seguidas vezes, tocou em todos os assuntos possíveis, insistiu na tese de que a principal prova não passaria de “fofoca“, argumentou que o uso do termo partiu do próprio Moro em conversa prévia, jurou que não pediu relatórios sobre inquéritos, e tentou fazer graça ao explicar a nomeação de um amigo de Carlos Bolsonaro: “você acha que eu deveria botar quem como diretor da PF? Alguém ligado ao PSOL?

Sob ataque

No alvo de ataques dos milicianos digitais bolsolavistas, Moro vem se permitindo contra-ataques. Deixou, por exemplo, escapar para a imprensa que não há como ter sido desleal com Carla Zambelli, uma vez que só teria aceitado apadrinhar o casamento da deputada federal em respeito ao noivo. Certamente, apostava que a opinião pública já esqueceu quem é Antônio Aginaldo de Oliveira. Trata-se do diretor da Força Nacional que chamou de “gigantes” e “corajosos” os policiais que, no início do ano, se amotinaram em episódio tão trágico que faria o total de homicídios no Ceará dobrar em relação ao primeiro bimestre de 2019.

Sob pressão

Mas o deslize de Moro não implica em descanso para Bolsonaro. Ainda sob forte pressão na mídia, a Procuradoria-geral da República promete investigar o que motivou a troca do superintendente da PF no Rio de Janeiro. Há sempre o risco de a investigação não passar de teatro para que, eclipsada por uma outra crise qualquer, termine na gaveta. A imprensa, contudo, promete responder o “cala a boca” com mais jornalismo. E já descobriu que o ato golpista de domingo contou com a ajuda do empresário Luís Felipe Belmonte, segundo vice-presidente do Aliança pelo Brasil, partido que Bolsonaro tenta viabilizar tendo o filho Flávio como primeiro vice.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: CNN Brasil, Crusoé, Época, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, O Antagonista, O Globo, Poder 360, R7, The Wall Street Journal e UOL.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Click to comment

You must be logged in to post a comment Login

Leave a Reply

To Top