Grande História

Sergio Moro e Jair Bolsonaro disputam o controle da narrativa

03.10.2019 - Brasilia/DF - O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, participam do lançamento da campanha publicitária do Projeto Anticrime, do governo federal. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil.

A bala de prata, os vazamentos, o papel de Aras, as narrativas falhas, o fim da novela dos exames, e muito mais.

Uma semana antes, por um canal governista, os primeiros detalhes adiantavam que carecia de “bala de prata” o depoimento dado por Sergio Moro à Polícia Federal. Ontem, por jornalistas que se habituaram a cobrir de perto a Lava Jato, os primeiros relatos sobre o vídeo que comprovaria a ingerência de Jair Bolsonaro na PF destacavam a descoberta da tal “bala de prata“.

Mas não há de ser mera coincidência. O “lavajatismo” é, antes de qualquer coisa, a certeza de que a política interfere mesmo nos julgamentos mais técnicos. E a política é conduzida por quem controla a narrativa. Se Moro não faz isso, Bolsonaro faria. E, ao que tudo indica, ambos andam arregaçando as mangas.

“Vazava como uma peneira”

A pressa com que detalhes vazaram por múltiplos veículos denota a urgência em retomar a vantagem num placar que vinha favorável ao Governo Federal. A pressa com que o presidente da República ofereceu mais tréplicas insanas não deixava de ser uma confirmação de que o ataque lavajatista atingira o alvo.

Mais ou menos dúvidas

Ao acompanhar com atenção os movimentos nada sutis de Bolsonaro, restam menos dúvidas sobre culpa ou provas, e mais sobre se haverá condições políticas de a investigação ser encarada com a devida seriedade. Augusto Aras, que integra o time de “supremáveis“, deixou escapar que teria ficado “absolutamente impressionando” com as revelações de ontem. Mas não se deve descartar o risco de a nota ter sido plantada visando a amenizar a pressão que o procurador-geral sofre para que atue em benefício da República, e não da União.

À procura da narrativa perfeita

Na busca por uma narrativa que salve o mandato, Bolsonaro quer provar que o rendimento da Polícia Federal estaria aquém do esperado, o que justificaria a pressão pela queda de Maurício Valeixo. O presidente se movimenta com a ajuda de Braga Netto, Augusto Heleno e Luiz Eduardo Ramos, três generais palacianos que ontem, em depoimentos simultâneos, endossaram a narrativa pouco crível de que tudo fora feito por uma melhoria no desempenho da PF.

Memória ruim

O depoimento de Heleno, ainda que da parte da Procuradoria-geral da República, traz o registro de que Bolsonaro falou em “proteger seus familiares e amigos“, o que confirma parte das informações já veiculadas. Mas, contrariando relatos de Moro, o chefe do Gabinete de Segurança Institucional disse não lembrar se falou ao ex-ministro que “esse tipo de relatório que o presidente quer, ele não pode receber“.

Contraditório

Heleno e Ramos findaram entrando em choque com a desculpa presidencial de que as expressões “Polícia Federal” e “Superintendência” nem chegariam a ser citadas no vídeo. Segundo Heleno, Bolsonaro reclamouda escassez de informações de inteligência que lhe eram repassadas para subsidiar suas decisões (…) sobre a Abin, sobre a PF e sobre o Ministério da Defesa“. A transcrição, inclusive, registra a PGR entendendo que o presidente fez, sim, uma referência ao “superintendente do Rio de Janeiro“, ainda que o texto não deixe claro se a menção era ao cargo da PF ou da Abin.

Equívoco?

E, de acordo Ramos, Bolsonaro se manifestoude forma contundente sobre a qualidade dos relatórios de inteligência produzidos pela Abin, Forças Armadas, Polícia Federal, entre outros”. Para Bolsonaro, no entanto, o secretário de Governo teria simplesmente se equivocado durante o testemunho.

Mais contradição

Noutro depoimento, o delegado Alexandre Saraiva revelou que ouviu do outro Alexandre, o Ramagem, que o presidente da República “tinha alguns nomes para sugerir ao ex-ministro Moro para ocupar a função” de superintendente da PF fluminense. Já Carlos Henrique Oliveira, ex-superintendente da Polícia Federal do Rio, confirmou que Flávio Bolsonaro era, sim, alvo de inquérito. Ambas as falas enfraquecem ainda mais as desculpas dadas por Bolsonaro.

Três exames

Se o pai de Carluxo tem pouco a comemorar no duelo de narrativas sobre a “bala de prata“, ao menos conquistou uma vitória num dos episódios que poderia findar em processo de impeachment. Ontem, a AGU entregou dois laudos que comprovariam que o presidente da República testou negativo para covid-19. Hoje pela manhã, entregou o terceiro. No início da tarde, Ricardo Lewandowski determinou que os exames viessem a público.

Menos uma novela

E os três de fato deram negativo, ainda que dois, por segurança, tenham feito uso de pseudônimos, e o terceiro o identifique apenas como “paciente 5”. Todavia, resta o mistério do que faz um presidente da República, em meio a uma pandemia, percorrer quatro instâncias da Justiça sonegando um documento que provaria a veracidade do que ele próprio falava.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: CNN Brasil, Folha de S.Paulo, G1, O Antagonista, O Globo, Poder 360, UOL, Valor Econômico, Veja e Vortex Media.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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