Grande História

Um governo em que todo dia é dia da mentira

03.02.2020 - São Paulo/SP - Presidente da República Jair Bolsonaro cumprimenta o Presidente e acionista da TV Band, João Carlos Saad. Foto: Isac Nóbrega/PR

O pronunciamento de Bolsonaro, o recuo do recuo, o gabinete da mentira, a sabotagem à renda mínima, a cobrança de Rodrigo Maia, e muito mais.

Pelo menos não falou do golpe“. Com estas palavras, a economista Elena Landau encontrou o que celebrar após o pronunciamento de Jair Bolsonaro desencadear o mais barulhento panelaço em quinze noites seguidas de protesto. Minutos depois, contudo, o presidente da República usava o Facebook para negar que o Brasil havia sofrido um autogolpe exatos 56 anos antes – o que só faz sentido na cabeça de quem tem rabo preso com a história.

Lido como mais um de muitos recuos de Bolsonaro, o tom brando da fala de ontem foi obra da ala fardada do Palácio do Planalto. Mas, mesmo fora do Governo, Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, teve papel decisivo na batalha. Antes, Gilmar Mendes em pessoa mandou a verdade que o presidente da República teima em não aceitar, e argumentou que forçar a abertura do comércio não necessariamente resultaria no uso deste comércio pela população.

Se, na semana passada, sob a tutela do gabinete do ódio, Bolsonaro escreveu mais uma página infeliz da nossa história, ontem, sob a guarda de adultos, o presidente levou ao rádio e à TV uma média de boa informações, ainda que não tenha desistido de vender a hidroxicloriquina, mesmo em estágio inicial de testes, como uma esperança contra a covid-19. Antes, Luiz Henrique Mandeta, ministro da Saúde, disse que um estudo ainda não publicado mostrará que a cloroquina consegue ao menos reduzir o tempo de terapia intensiva dos pacientes em estado grave.

Efêmero

Mas os recuos de Bolsonaro têm vida curta. A quarta-feira amanheceu com o presidente, em ataque ao confinamento defendido pelos governadores, compartilhando um vídeo que mostraria a Ceasa de Belo Horizonte sofrendo com desabastecimento. Como tudo que sai do gabinete do ódio, era um vídeo falso filmado durante a limpeza do local, que segue funcionando normalmente. Com a imprensa agindo em tempo hábil, a peça de propaganda enganosa foi apagada, não sem antes o player de vídeo contabilizar mais de 470 mil visualizações.

Gabinete da mentira

Ainda ontem, Mandetta precisou negar que a OMS havia pedido o fim do isolamento, algo que Bolsonaro espalhava diante das câmeras. Antes, Facebook e Instagram, seguindo uma tendência iniciada pelo Twitter, apagaram postagens com mentiras compartilhadas pelo perfil presidencial. Não por acaso, a imprensa tem aproveitado o 1º de abril para publicar listas de mentiras já proferidas pelo chefe do Executivo.

Não é brincadeira

Não é segredo para ninguém que as redes sociais de Jair Bolsonaro sofrem interferência direta de Carlos Bolsonaro. Recentemente, mesmo sem cargo, o Zero Dois ganhou uma sala no próprio Palácio do Planalto. Alguns, fazendo graça, chamam o cômodo de “brinquedoteca“. Mas uma postagem do vereador federal levanta a suspeita de que ele possa estar atrapalhando a tramitação do projeto mais urgente no combate aos efeitos da pandemia, a renda básica emergencial.

#PagaLogo

Por três meses, o auxílio garantirá uma renda mensal de até R$ 1.200 por família. Prometido para 10 de abril, deveria ter sido sancionado ainda ontem, cumprindo a promessa feita por Bolsonaro pela manhã. Nos preparativos para o pagamento do benefício, até as lotéricas voltaram a ser consideradas serviços essenciais. Mas, cobrado por Rodrigo Maia, Paulo Guedes alegou que antes precisa que o Congresso aprove uma PEC liberando o Governo Federal de algumas amarras fiscais. Na réplica, o presidente da Câmara lembrou que o governo já conquistou essa tal liberdade em ação impetrada no STF junto ao ministro Alexandre de Moraes. Maia foi além, e acusou Guedes de terceirizar responsabilidade, e mentir.

Pronunciamento no Twitter

A pressão do primeiro-ministro informal tem sido tamanha que até um pronunciamento foi publicado nas redes sociais.

Mais promessas

Hoje, Jair Bolsonaro prometeu que aproveitaria o dia da mentira para finalmente sancionar o projeto. Fica a torcida para que seja verdade.

Desenhou

Curtas

  1. Interpretando os relatos de Rodrigo Maia, conclui-se que Jair Bolsonaro caminhava para ser afastado quando o novo coronavírus o segurou no cargo.
  2. Divididos, os caminhoneiros não se decidem se farão uma greve beneficiando a narrativa presidencial, ou se o presidente da República é simplesmente doido.
  3. Em concordância com a edição de ontem desta coluna, interpretaram em Brasília que a lamentável celebração do golpe de 1964 não passou de um aceno de Hamilton Mourão ao eleitorado bolsolavista.
  4. Reis Friede, desembargador do TRF-2, não deixou que o fundo eleitoral fosse usado no combate ao novo coronavírus.
  5. Se há subnotificação dos casos de covid-19, a Fiocruz percebeu que a “curva de internações” por problemas respiratórios tem desacelerado, o que é ótima notícia.
  6. Até o canabidiol, uma das substâncias químicas encontradas na maconha, está sendo testado na luta contra o novo coronavírus.
  7. Mesmo que contra o péssimo ministro do Meio Ambiente, é lamentável que, dado o contexto, ainda haja quem publique mentira usando o 1º de abril como desculpa.
  8. Seguindo o exemplo da americana, a embaixada da Alemanha está recomendado aos alemães que se encontram no Brasil que deixem o país o quanto antes.
  9. O confinamento tem impactado tanto o meio meio ambiente que já se nota até mesmo uma redução nos ruídos sísmicos, facilitando a vida de geólogos.
  10. Quando esse texto começou a ser escrito, havia 913.169 seres humanos com covid-19. Quando ele foi concluído, havia 15 mil casos a mais.

Abre Aspas

“Não adianta tentar colocar a culpa na Constituição Federal: as suas salvaguardas fiscais não são obstáculo, mas ferramenta de superação desta crise. O momento exige grandeza para se buscar soluções de uma Administração Pública integrada e livre do sectarismo. #PagaLogo.”

Gilmar Mendes, ministro do STF, provando que membro da Suprema Corte pode usar hashtag.

Um Pio

Vale Seguir

Muito antes de virar tendência planetária, Jacob Collier se confinava no próprio quarto para dele construir canções que, até o momento, já renderam seis Grammys.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: CBN, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, G1, GZH, IstoÉ, O Antagonista, O Globo, O Povo, Terra, Valor Econômico, Valor Investe e Veja.

03.02.2020 - São Paulo/SP - Presidente da República Jair Bolsonaro cumprimenta o Presidente e acionista da TV Band, João Carlos Saad. Foto: Isac Nóbrega/PR

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 3 de fevereiro de 2020 por Isac Nóbrega, fotógrafo da Presidência da República, em São Paulo, São Paulo. Nela, Jair Bolsonaro discursa em evento na TV Bandeirantes.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque você não vai se safar com as suas mentiras.

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