01.01.2011 - Brasília/DF - Dilma Rousseff recebe a faixa presidencial de Lula. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr.
Grande História

Um outro olhar sobre o impeachment de Dilma Rousseff

Porque muitas narrativas foram trabalhadas desde que o PT deixou o poder. Mas a maioria não resiste a uma revisão.

01.01.2011 - Brasília/DF - Dilma Rousseff recebe a faixa presidencial de Lula. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr.

Há várias formas de se vencer eleições no Brasil. Uma, contudo, parecia mais certeira na primeiro década do terceiro milênio. Nas disputas municipais, deputados e senadores retornavam às bases com pedidos de votos para candidatos a prefeituras e câmaras de vereadores. Dois anos depois, prefeitos e vereadores montavam palanques para que os parlamentares renovassem o mandato junto ao Congresso Nacional.

Quando 2011 se encerrou, praticamente dois terços dos municípios tinham como principal fonte de renda a remuneração dos aposentados. O número delineia a dependência de socorro federal da parte das menores cidades do país. Mas uma boa parceria entre um prefeito e um congressista afinado com o Palácio do Planalto garantiria a liberação de emendas para obras cruciais, ainda que de pequeno porte. Por isso, uma vez em Brasília, essa bancada facilmente abre mão do discurso ideológico para, de maneira pragmática, integrar a base do Governo Federal. Dessa forma, dá luz a um invejável bloco que, por despeito da direita e/ou esquerda, é pejorativamente batizado de centrão.

Mas a dinâmica está longe de ser um exemplo de probidade. Ao final de 2016, a Controladoria Geral da União calcularia em R$ 4 bilhões o prejuízo com a corrupção que, nos 14 anos que antecederam o levantamento, garfara a verba federal distribuída a 729 municípios (o que certamente não passava da ponta de um iceberg). Todavia, ainda que permitisse à soma das migalhas resultar em cifras incômodas, o nanismo dos projetos impedia que eventuais escândalos repercutissem em todo o país.

Sucessão

Talvez por isso, em 2010, nada dessa corrupção pulverizada pela própria base parecia incomodar Lula, que concluía o oitavo ano de mandato preferindo defender que o Democratas, um dos raros partidos de oposição, fosse extirpado da política brasileira. E a coisa não ficou só na vontade. Enquanto o voto em Dilma Rousseff era defendido no interior do Brasil por parlamentares do centrão, Gilberto Kassab, o principal prefeito do DEM, já disparava convites para que políticos migrassem nos meses seguintes ao Partido Social Democrático, agremiação que, ao término do primeiro mandato da petista, seria premiada justamente com o Ministério das Cidades.

A lei eleitoral permitia que parlamentares migrassem sem perda de mandato para novas siglas. Desta forma, o PSD nasceu com 30 deputados federais, um terço deles garimpado do DEM, partido que se viu reduzido a uma média potência da Câmara Federal.

Era o auge do petismo. A economia havia concluído o ano eleitoral com um crescimento chinês, Lula terminara o segundo mandato aprovado por nove em cada dez brasileiros, e praticamente ninguém ousava fazer oposição de verdade ao Governo Federal. Naquele 2010, a bancada evangélica pedia votos a Dilma, que escalava aliados como Eduardo Cunha para combateremfake news” nos templos. Até o polêmico e inexpressivo Jair Bolsonaro era reeleito em uma agremiação da base petista, o Partido Progressista.

Mesmo assim, menos de seis anos depois, Dilma seria impedida de continuar no comando do país em um processo que poderia ser contido caso a presidente mantivesse o apoio de apenas um terço da Câmara Federal. Como isso foi possível?

Primeiro mandato

A gestão havia iniciado o trabalho com 37 pastas, uma anomalia que parte da imprensa buscava normalizar subtraindo os 13 ministros que oficialmente assinavam como secretários. Lotear a Esplanada dos Ministérios era uma das formas que Lula encontrara para costurar as múltiplas alianças que permitiriam ao PT renovar o mandato presidencial por um total de três vezes.

Toda aquela trupe, no entanto, vinha acompanhada de uma enorme bagagem. E, aos poucos, o conteúdo das malas ocupava as manchetes, provocando quedas. Ao término da passagem pelo Planalto, Dilma substituiria 86 ministros, uma troca a cada 22 dias.

Para os padrões da época, era um início de governo tão turbulento que Marta Suplicy confessaria que, antes mesmo da eleição de 2012, cogitou lançar o nome de Lula como candidato à Presidência em 2014, mas foi contida pelo ex-presidente sob o argumento de que ainda “não era hora“. A dificuldade em lidar com o próprio ministério, entretanto, em nada se compararia com a crise que se iniciaria quando a presidente da República achou vantajoso usar a prefeitura de São Paulo como uma espécie de 38ª pasta do Planalto.

Junho de 2013

Janeiros de anos ímpares eram tradicionalmente os meses em que prefeitos reajustavam os preços das passagens do transporte público. De tal maneira que, além do desgaste em ano eleitoral, evitavam duros protestos num período em que os integrantes do movimento estudantil veraneavam.

Mas a inflação entrou 2013 raspando o teto da meta. E Guido Mantega tinha mais interesse em mascará-la do que contê-la. Desta forma, convenceu Fernando Haddad, que herdara a prefeitura do agora aliado Kassab, a adiar em alguns meses o aumento das passagens de ônibus. A manipulação (ou “contabilidade criativa“, como o ministro da Fazenda preferia chamar) reverberou além das fronteiras do país. Foi desta forma que o Financial Times apresentou ao mundo a expressão “jeitinho“.

O inverno já se aproximava quando, no maio seguinte, o aumento de 20 centavos finalmente se concretizou. Houve esforço do prefeito paulistano para que não superasse os 7%, mas o movimento estudantil já havia voltado das férias. Desta forma, conseguiu se dedicar à causa com um empenho inédito, e black blocs.

O objetivo dissimulado dos black blocs é provocar as forças policiais até que se excedam, o que naturalmente, com auxílio de imagens dramáticas da imprensa, joga a opinião pública contra o governante da vez. Em São Paulo, por uma questão de hierarquia, algo do tipo não deveria criar problemas para Haddad, mas a Geraldo Alckmin, governador responsável pelo maior orçamento da oposição ao governo Dilma.

O roteiro seguiu como esperado. Os black blocs provocaram, os principais veículos de imprensa exigiram uma reação contundente, a reação rendeu cenas terríveis transmitidas ao vivo para todo o país em horário nobre, e de fato o governador paulista teve a popularidade abalada. Mas o impacto foi muito maior que o esperado, com toda a classe política atingida. E ninguém sofreu estrago maior na própria imagem do que Dilma.

Agenda positiva

De imediato, os três poderes da República tentaram conter a ebulição abraçando o que chamavam de agenda positiva. Dentre os muitos temas que buscavam acalmar os manifestantes, o Congresso se permitiu enterrar a PEC 37, que limitava o poder de investigação do Ministério Público, e Dilma sancionou a lei da delação premiada.

Em paralelo, para recuperar a popularidade a tempo da reeleição, a presidente inflou programas sociais explorando todo tipo de artimanha contábil. Em debate durante campanha pela reeleição, o próprio Mantega chamaria o que julgava ser lícito de “pedalada” — algo que a ONG Contas Abertas alertava desde o início do ano ser problemático, mas o Governo Federal preferia ignorar.

Volta, Lula

Contudo, não era possível maquiar os problemas políticos com a própria base. Foi quando uma ala do PT achou que havia tempo para desistir da reeleição, e iniciar o que seria batizado de “Movimento Volta, Lula“. Em janeiro de 2014, Marta buscou o ex-presidente, que concordou com a senadora, reconhecendo que “os empresários estão se desgarrando, está uma situação difícil. E ela (Dilma) continua sem dar a menor trela“.

A própria Marta organizou um jantar discreto, longe da imprensa, com o que chamava de “30 PIBs paulistas“. No encontro, Lula não era econômico nas críticas a Dilma e Aloizio Mercadante, para deleite dos convidados. Segundo a anfitriã, “ninguém falou claramente, mas todo mundo saiu dali com a convicção de que ele era, sim, o candidato. (…) A verdade é que ele nunca disse, mas sempre quis ser candidato, e achou que ia ser“. Ainda de acordo com Marta, a própria Dilma foi convidada a integrar o “Volta, Lula”, mas não atendeu ao chamado. Foi quando sucessora e antecessor simplesmente deixaram de se falar.

Em fevereiro de 2014, por causa da retenção de R$ 447 milhões em emendas parlamentares, o governo Dilma vinha se degladiando com a própria base, ou o “blocão” com oito partidos liderados por Cunha. Contudo, da Presidência da Câmara, Henrique Alves não via insatisfação suficiente para que um “Volta, Lula” impedisse a candidatura da petista.

Dois meses depois, Lula tentou acalmar a militância empolgada com uma possível volta do petista. Mas a coletiva com blogueiros rendeu manchetes em que o ex-presidente fazia cobranças públicas à titular do cargo. Com isso, o “Volta, Lula” ganhou força.

Ao fim daquele mês, ainda que por uma coluna social voltada aos bastidores do poder, chegou ao noticiário a informação de que Lula já confirmava a empresários amigos que seria o candidato do PT em 2014, e que a decisão era vista com bons olhos pelo partido. Dois anos depois, Marcelo Odebrecht, um empresário amigo de Lula, confessaria em delação que havia financiado o “Volta, Lula” em R$ 7,6 milhões.

Em junho de 2014, havia a expectativa de que a convenção do partido servisse para que Lula, em privado, explicasse a Dilma que iria já em 2014 buscar um terceiro mandato presidencial. Mas, segundo Marta, enquanto o ex-presidente saiu da conversa parecendo que “tinha levado uma surra“, Dilma entrou no palco “saltitando“. O petista, no entanto, negaria em discurso qualquer divergência entre ambos.

No ano seguinte, chegaria à imprensa que, naquela conversa em particular, Dilma teria ameaçado Lula com o que sabia sobre a compra da Refinaria de Pasadena. De fato, Nestor Cerveró entregara em delação que R$ 4 milhões daquele péssimo negócio teriam servido à campanha que reelegeu o petista em 2006. Em 2016, também em delação, Monica Moura confirmou que a relação entre os dois esteve “estremecida” durante a eleição de 2014. E que o objetivo do ex-presidente era voltar logo ao Planalto, mas Dilma simplesmente não deixou.

Segundo Antonio Palocci confessaria em 2019, a briga entre Lula e Dilma não só existiu, como tinha três motivos principais: a nomeação de Graça Foster à presidência da Petrobras; a centralização do financiamento de campanha no próprio PT, e não em Lula; e a construção da Usina de Belo Monte.

Em setembro de 2014, já no início da campanha eleitoral, um site apócrifo defendia que Dilma fosse substituída na disputa presidencial. Com uma contagem regressiva para a data limite, o projeto lula2014.org pedia para que o PT emplacasse Lula na disputa. A autoria do site era mascarada, mas foram encontrados rastros das assessoria de Alencar Santana Braga, do PT, e Rodrigo Rollemberg, do PSB, que negavam qualquer envolvimento. No dia seguinte, o “Volta, Lula” atingiu o ápice de acordo com o monitoramento do Google Trends. Mas o site sairia do ar a pedido do próprio beneficiário da iniciativa.

Fora, Lula

Quando Dilma iniciou o segundo mandato, o PT estava tão dividido que, na prática, Lula findou excluído do Governo Federal. Foi quando Marta Suplicy, já no PMDB, veio a público com os detalhes rememorados mais acima. “Já no primeiro dia, vimos um ministério cujo critério foi a exclusão de todos que eram próximos do Lula. O Gilberto Carvalho é o mais óbvio“, disse a senadora. De acordo com Marta, o plano de Mercadante incluía a sucessão da presidente em 2018.

Ainda naquele primeiro mês, Dilma convocou Kassab para fazer com o PMDB o mesmo que Lula já havia feito com o DEM: criar uma nova sigla que permitisse ao governo “confiscar” aliados. Com uma importante diferença: enquanto Lula agira em 2010 contra um partido de oposição, Dilma atacava o maior partido da própria base. Ou pior: o partido de quem poderia sucedê-la numa eventual queda por um processo de impeachment que já atraía milhares de manifestantes às ruas.

Como explicaria Roberto Jefferson, essa jogada audaciosa contra a própria base foi o que permitiu a Cunha somar forças com o baixo clero. A ideia de Kassab era trabalhar a volta do Partido Liberal após o carnaval de 2015. Antes, contudo, a Câmara Federal impôs a mais dura derrota a Dilma até então, e fez do líder do centrão o presidente da casa.

Lava Jato

A queda da PEC 37, e a sanção da lei da delação premiada, ambas medidas da agenda positiva tocada por Brasília em agrado aos manifestantes de junho de 2013, caíram como uma luva nas pretensões de uma força-tarefa que atuava em Curitiba. Em março de 2014, com base em informações do COAF, a Polícia Federal foi às ruas prender Alberto Youssef e outros 23 suspeitos em esquema de lavagem que movimentara mais de R$ 10 bilhões. Na ocasião, a operação Lava Jato mirava os principais líderes do câmbio negro no Brasil.

Faltando dias para a reeleição de Dilma, uma capa da revista Veja destacou um detalhe da delação premiada de Youssef. De acordo com o doleiro, os presidentes petistas tinham ciência do esquema corrupto que desviava verbas da Petrobras.

Quando Dilma iniciou o segundo mandato, a Lava Jato se preparava para avançar contra as autoridades com foro privilegiado. No noticiário, a expectativa pela “lista” de Rodrigo Janot era grande. Em especial, pelo que a operação teria contra Aécio Neves, senador alçado a principal nome da oposição em decorrência dos 51 milhões de votos recebidos na derrota de 2014. Interessava a Dilma trabalhar a narrativa de que, apesar dos problemas da gestão, as opções da oposição seriam piores. Afinal, tática semelhante fora explorada por anos para que os absurdos de Hugo Chávez na Venezuela fossem minimizados junto à opinião pública.

Mas, quando a lista de Janot ficou pronta, nada de relevante trazia contra o tucano. O que fazia algum sentido, uma vez que a Lava Jato apurava desmandos na Petrobras, uma estatal que fora fatiada junto à base do governo, ou longe da influência da oposição. Sem a possibilidade de polarizar com o PSDB, o Planalto calculou que o melhor plano B seria vazar à imprensa os nomes de Renan Calheiros e Cunha. Desta forma, numa única tacada, Dilma perdeu o apoio dos presidentes da Câmara e Senado.

Em paralelo, a operação se aproximava dos aliados de Lula. Acuado, o ex-presidente exigia de Dilma, a exemplo do que fizera ainda em 2007, mudanças no comando da PF. Mas o governo Dilma se negava a interferir nas investigações.

Conforme Palocci confessaria em 2019, a briga entre Dilma e Lula estava tão feia que a presidente “deu corda para o aprofundamento das investigações, uma vez que isso sufocaria e implicaria Lula“. Conforme Delcídio do Amaral comentaria em 2016, a ideia de deixar a Lava Jato pegar Lula teria nascido de um conselho dado por Mercadante a Dilma.

Quando, nas palavras de Mercadante, a Lava Jato “pode chegar até no Lula“, o ministro de Dilma deixa subentendido que não poderia chegar na presidente. Essa explicação torna mais claro o recado que Marcelo Odebrecht, o homem que bancou o “Volta, Lula”, deu à própria Dilma em maio de 2015, no México, em encontro confirmado pela petista. A anotação surgiria no celular do empreiteiro, em material que veio a público apenas dois meses depois: “dizer do risco da cta suíça chegar campanha dela?

O recado era um pedido de socorro. Mas também funcionava como uma ameaça: se José Eduardo Cardozo não fizesse por onde anular as provas enviadas pela Suíça, a presidente seria atingida pela Lava Jato.

Dilma negou-se a intervir mesmo assim. Mas mudou de postura após a prisão do empreiteiro no mês seguinte. E fracassaria em todas as tentativas de conseguir um habeas corpus para o filho de Emílio Odebrecht — que cumpriria a “ameaça” delatando a já ex-presidente em 2017.

Dilma x Cunha

Mais experiente, Renan Calheiros abraçou a primeira oportunidade de se reaproximar de Dilma. Menos experiente, Cunha não conseguiu se desviar de uma imprensa que noticiava os problemas do peemedebista no conselho de ética como de gravidade igual ou maior que a do escândalo que atingia a maior estatal do país.

Em julho de 2015, Cunha convocou uma coletiva, declarou-se rompido com o governo Dilma, e traçou um plano para que prosperassem os pedidos de impeachment que chegavam em resposta aos gigantescos protestos de rua. A ideia era arquivá-los, mas um recurso da oposição levá-los a uma votação no plenário, onde uma maioria simples permitiria ao processo tramitar. Contudo, Rosa Weber e Teori Zavascki impediram com liminares que a estratégia vingasse.

A decisão era ótima para Cunha e Dilma, que agora podiam negociar sem intermediários o arquivamento dos casos de ambos. Segundo entregaria o deputado, a presidente chegou a oferecê-lo “cinco ministros do Supremo” para salvá-lo dos problemas com a Justiça.

O fato é que, em dezembro de 2015, com 9 dos 20 votos do colegiado, Cunha usava o risco de impeachment de Dilma para forçar o PT a completar a maioria no conselho de ética. E Dilma trabalhava nesse sentido, com a bancada petista inclinada a salvar a pele de ambos.

Foi quando uma ligação de Rui Falcão determinou que Zé Geraldo, Valmir Prascidelli e Leo de Brito votassem contra o presidente da Câmara, melando o acordo costurado por Jaques Wagner e Ricardo Berzoini em benefício de Dilma. Teria a rasteira do presidente do PT ocorrido sem a anuência de Lula? É pouco crível.

Em retaliação, Cunha cumpriu a ameaça, e o pedido de impeachment de Dilma foi aceito pelo presidente da Câmara.

Reaproximação

Tudo indica que Dilma e Lula só conseguiram deixar as diferenças de lado quando o impeachment já tramitava na Câmara, e a Lava Jato conduzia Lula coercitivamente. Menos de duas semanas depois, a presidente tentou blindar o padrinho político com foro privilegiado na Casa Civil, a mesma pasta que fora ocupada por Mercadante quando, segundo Delcídio, o ex-senador teria aconselhado Dilma a deixar Lula ser pego pela Lava Jato. Três dias antes, contudo, o Brasil tinha testemunhado a maior manifestação política da história, o que tornou fácil a missão de Gilmar Mendes, que com uma canetada devolveu Lula a Sergio Moro.

Em 12 de maio de 2016, Dilma Rousseff foi afastada. Horas depois, Michel Temer assumiu a Presidência da República. Como um dos primeiros atos, extinguiu a CGU, o órgão que tanto fiscalizava as pequenas prefeituras que montavam palanques para parlamentares do centrão.

Até hoje, o petismo trabalha a narrativa de que o impeachment de Dilma teria sido um golpe tramado pela oposição. Quem acompanhou o longo processo de perto sabe, no entanto, que a versão não se sustenta.

Os primeiros atos exigindo a queda da presidente datam de novembro de 2014. Em um corpo mole que não convencia a opinião pública, os principais nomes do PSDB deram seguidas declarações contrárias ao processo. Quando finalmente tentaram participar das manifestações, já era março de 2016. E, por isso, foram chutados de lá por quem os percebeu.

Dilma cai por uma rebelião da própria base. A base que Lula costurou, mas Dilma atacou. Porque imaginava ser honesta e, rifando o próprio padrinho, capaz de forjar o pós-Lula. Mas ouviu de Marcelo Odebrecht no México que havia controvérsia sobre a tal honestidade. E se mostrou incapaz até mesmo de conseguir um habeas corpus para o empreiteiro, o que tornava impossível tocar o “grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo” que, somente em 2019, já no governo Bolsonaro, protegeu Lula, protegeu Flávio Bolsonaro, protegeu todo mundo — menos Eduardo Cunha, único dessa longa história a seguir preso.

Quando Lula defende, em 2020, a interferência de Bolsonaro no comando da Polícia Federal, faz menos referência ao que o próprio petistas fez em 2007, e mais ao que queria que Dilma tivesse feito em 2015, mas a então presidente se negou. Porque Lula pode até se importar com a agenda progressista que defende nos microfones. Mas, para o ex-presidente, a prioridade é a inutilização do combate à corrupção. E, por ela, vale até mesmo impedir que a oposição a Bolsonaro seja oposição, coisa que faz desde 21 de maio de 2019, quando a proibiu de tocar qualquer tipo de “fora, Bolsonaro”. “Coincidentemente”, mesma data em que Dias Toffoli selou um acordo com o neofascista que preside o Brasil.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Agência Brasil, BBC Brasil, Correio Braziliense, Crusoé, Diário do Poder, El País Brasil, Época, Estado de Minas, Estadão, Exame, Extra, Financial Times, Folha de S.Paulo, G1, Glamurama, O Antagonista, O Globo, UOL e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Um outro olhar sobre o impeachment de Dilma Rousseff
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