Grande História

É preciso conter com urgência o neotenentismo bolsolavista

29.11.2018 - Rio de Janeiro/RJ - O presidente eleito Jair Bolsonaro participa da formatura e diplomação de militares na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, na Vila Militar em Deodoro, no Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/Agencia Brasil

Os motins policiais, o bolsolavismo da PM, o risco do neotenentismo, as ameaças de golpe, a conluio com os golpistas, e muito mais.

Entre 4 e 14 de fevereiro de 2017, o Espírito Santo foi vítima de um motim da Polícia Militar. Nos onze dias da greve criminosa, 181 capixabas foram mortos. Na logística da paralisação, operava um grupo político ligado ao então deputado Jair Bolsonaro, que os apoiava nas redes sociais.

Entre 18 de fevereiro e 1º de março de 2020, o Ceará foi vítima de um motim da Polícia Militar. Nos treze dias da greve criminosa, 312 cearenses foram mortos. Na logística da paralisação, operava um político ligado ao agora presidente Jair Bolsonaro, que o recebia em almoço no Palácio do Planalto.

Apoio governamental

A carnificina nordestina não contou apenas com o apoio do presidente da República. Aginaldo de Oliveira, marido da deputada federal Carla Zambelli, e comandante da Força Nacional, chamou os amotinados de “gigantes e corajosos“. Damares Alves, ministra que deveria proteger os direitos humanos, deu de ombros para as centenas de mortes, e defendeu que os policiais tinham direito de fazer greve, o que é proibido pela Constituição Federal.

Cursos gratuitos

Em meados de 2019, sob aplausos de Carlos Bolsonaro, Olavo de Carvalho prometeu dar cursos gratuitos a policiais militares. O alcance disso segue um mistério. No entanto, está no Diário Oficial que André Mendonça, o sucessor de Sergio Moro, explorando brechas legais em uma área fiscalizada por Eduardo Bolsonaro, agregou a espionagem das PMs ao Ministério da Justiça.

Chavismo de direita

O grande risco é o Brasil reviver um século depois as revoltas do tenentismo, um movimento político-militar encabeçado por oficiais de baixa patente. E foi justamente sob a tutela golpista de um oficial de baixa patente que a Venezuela aos poucos se converteu na ditadura que é hoje.

Neofascismo

Manchetes recentes não se cansam de aglomerar pulgas atrás da orelha. Em São Paulo, a associação que representa os oficiais da PM se dizia, em abril, contrária à prisão de quem furava o isolamento social. Em maio, o comandante da Rota foi trocado após confrontar posicionamentos de Bolsonaro. Agora, em junho, um repórter foi agredido por um PM ao cobrir a briga entre um antifa e um neonazista que exibia suásticas na Paulista.

Agenda federal

Durante a pandemia, equipes que pesquisavam o real tamanho da covid-19 foram detidas em uma dúzia de estados. Em Rondônia, o comando da PM suspendeu o apoio às operações do Ibama e ICMBio no combate ao desmatamento. No Distrito Federal, o governador exonerou um subcomandante da PM por suspeita de conivência do exonerado com o grupo fascista que disparou fogos de artifício contra o STF.

Mais de 7 mil

Todos esse eventos levam a crer que parte da Polícia Militar ignora os governos estaduais em benefício de um alinhamento político com o Palácio do Planalto. O fenômeno parece ir além das evidências anedóticas ao se constatar que, entre 2010 e 2018, em participações cada vez mais ativas, exatos 7.168 policiais militares disputaram eleições no Brasil.

PF também

Mas a coisa vai além da PM. O suplente de Flávio Bolsonaro contou que o vazamento da operação Furna da Onça chegou a Jair Bolsonaro por um policial federal. Antes da denúncia de Paulo Marinho, a própria Polícia Federal engavetou as suspeitas de vazamento alegando que tudo não teria passado de uma precaução dos investigados ao perceberem o risco em documentos que, até a PF apresentá-los, seguem inexistindo.

Contra as instituições

Que Jair Bolsonaro quer se eternizar no poder por intermédio de um autogolpe, já não há dúvidas. Sabe-se também que isso viria pelo que Hamilton Mourão chamou na campanha de “anomia“, uma crise política em que os poderes constituídos já não mais seriam reconhecidos. E daí se explica tanta agressão bolsolavista às instituições.

Reação

Na semana passada, Dias Toffoli largou a conivência pura e simples, cobrou de Jair Bolsonaro o fim de tantos gestos dúbios, e garantiu que as Forças Armadas não eram um poder moderador, algo que ganharia caráter oficial em decisão de Luiz Fux referendada por FHC, um dos dois autores do artigo deturpado pelos intervencionistas. Em resposta, o presidente da República sacou mais uma dubiedade, e novamente se deu a reinterpretar a Constituição, algo que não cabe a ele, nem a Mourão ou ao ministro da Defesa, ambos signatários de mais nota golpista deste governo.

Corda esticada

Antes, Luiz Eduardo Ramos garantira que não haveria golpe se, atenção, não esticassema corda“. Como exemplo do que seria uma corda esticada, o próprio Bolsonaro citou o pedido de cassação pela invasão de uma página no Facebook crítica ao ainda presidenciável. De fato, o motivo elencado soa banal, mas integra apenas uma das oito ações que correm no TSE. Que já conta com o compartilhamento de provas levantadas pelo STF no inquérito que avança contra o gabinete do ódio — este, sim, um trabalho fundamental na vitória da dupla que hoje governa o Brasil.

Golpismo de pijama

A sanha golpista conta com o apoio de um manifesto assinado por 52 militares das três Forças; todos, atenção, da reserva. Os da ativa preferiraam se alinhar com o STF e reprovar a nota da sexta-feira passada. Talvez isso explique o que fez Mourão, na sequência, afirmar que fardados não dão declarações políticas, que o presidente sabe que não o acompanhariam num golpe, e que precisaacabar essa história de que Forças Armadas estão metidas na política“.

Varredura

Certo. Mas e as forças policiais? Em São Paulo, o governo já se tocou que precisa conter o bolsolavismo da Polícia Militar. Falta essa agenda ser copiada pelos outros 26 governadores. Sob pena de motins policiais findarem na anomia tão sonhada pelos golpistas de pijama.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BBC, CNN Brasil, Estadão, Folha de S.Paulo, Extra, G1, Infomoney, Metrópoles, O Antagonista, O Globo e UOL.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Click to comment

You must be logged in to post a comment Login

Leave a Reply

To Top