Grande História

As vergonhas que o governo de Jair Bolsonaro faz o Brasil passar

14.9.16 - Brasília/DF - Jair Bolsonaro discute com a deputada Maria do Rosário no plenário da Câmara dos Deputados. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por vezes, passar vexame soa política de governo. Mas nenhum auxiliar consegue superar o chefe no quesito constrangimento.

Na quinta-feira, dia 16, Jair Bolsonaro surpreendeu ao alertar que não recomendava o uso de cloroquina: “Não estou fazendo nenhuma campanha“, disse. A mudança de postura nascia do medo de se complicar no Tribunal Penal Internacional. Passados três dias, contudo, como um capitão que levanta a Taça Fifa ao término de uma Copa do Mundo, o presidente da República exibiu a embalagem do medicamento a alguns “gados” pingados que se manifestavam em Brasília.

Antes, Bolsonaro já havia confirmado que também tratava a própria covid-19 com um vermífugo, ou mais uma medida sem comprovação científica. Não se sabe, no entanto, se o presidente fez uso de alho cru, como sugeria a apoiadora a quem ele, em junho, prometeu um horário na agenda. Ou como tragicomicamente creem 7% dos brasileiros.

Coisas infinitas

Fritz Perls foi o psicoterapeuta que desenvolveu a Gestalt-terapia. Entretanto, dos livros que lançou, nada se tornou mais popular do que as aspas que ouviu numa tarde despretensiosa ao lado de Albert Einstein: “Duas coisas são infinitas, o universo e a estupidez humana, mas ainda não tenho certeza absoluta sobre o universo“. E olha que Einstein morreu 65 anos antes de duas das maiores democracias do mundo combaterem o Sars-CoV-2 sob as lideranças de Bolsonaro e Donald Trump.

Rolha e desinfetante

Se alguns entusiastas do brasileiro tentavam evitar o novo coronavírus inserindo uma rolha lá onde o gato de João Grilo descomia dinheiro, alguns entusiastas do americano buscaram imunidade conforme conselhos do morador da Casa Branca: ingerindo desinfetante. E são tempos tão loucos que mesmo este texto precisa alertar que se tratam de duas insanidades a serem evitadas.

Reaction video

Em 6 de fevereiro, o vira-latismo de Bolsonaro fez com que, por 73 minutos, interrompesse a agenda presidencial para protagonizar uma transmissão ao vivo em que nada fazia além de acompanhar um pronunciamento de Trump a respeito do processo de impeachment do qual se safara. No ano anterior, ao tentar acrescentar os Estados Unidos no bordão paraquedista que tornou popular na campanha eleitoral, confundiu-se ao ponto de até mesmo esquecer-se de citar Deus.

Piadas preconceituosas

Os mais ridículo, contudo, não foi flagrado pelas câmeras. Em junho de 2019, na reunião do G20, Bolsonaro perguntou ao presidente americano, que usava uma gravata rosa, se não tinha uma “também para homem“. Foi além e, ao apresentá-lo a Hélio Lopes, advertiu que o deputado federal, “apesar de negão, tem bilau de japonês“.

Piada no exterior

O presidente brasileiro também já fez o país passar vergonhas internacionais alegando que Roger Waters fora contratado para criticá-lo nas eleições de 2018, mentindo que Leonardo DiCaprio teria envolvimento com incêndios que devastavam a Amazônia, cancelando de última hora uma reunião com o chanceler francês para se exibir cortando o cabelo em mais uma live, e zombando da aparência da esposa de Emmanuel Macron, presidente da França.

Política de governo

Por vezes, o vexame soa política de governo. Em setembro de 2019, Paulo Guedes endossou a grosseria contra Brigitte Macron. Dos muitos momentos constrangedores de Abraham Weintraub, destacou-se o “imprecionantepublicado em janeiro pelo pior ministro da Educação da história. Em abril, Augusto Heleno, que chefia o Gabinete de Segurança Institucional, deixou vazar o próprio CPF nas redes sociais, o que rendeu até tentativa de filiação ao PT. Em maio passado, Osmar Terra, ainda um dos principais conselheiros de Bolsonaro, achou que fora direcionada a ele uma crítica publicada pelo deputado Alceu Moreira contra o “imbecil convicto“. Coube também a essa gestão convocar uma “coletiva em off“, da parte do Itamaraty, e acrescentar uma festa “surpresa” na agenda oficial, da parte da Casa Civil.

Animal Farm

Noutras, o país parece viver uma verdadeira “revolução dos bichos”. Ciro Gomesconcordou que o Brasil é um Boeing pilotado por um chimpanzé, analogia adequada a um presidente que vivia distribuindo bananas à imprensa. Em uma das vezes, com auxílio de uma espécie de bobo da corte do século XXI, literalmente. Essa gestão, inclusive, virou notícia pelos ratos que surgiram na residência oficial do presidente, e na sede do partido que o elegeu. A primeira-dama até adotou e batizou com o sobrenome da família um cachorro que já tinha família. E o marido dela findou bicado quando tentava alimentar emas com, de novo, bananas… Duas vezes!

Asnos

Se já houve por aqui uma entrevista presidencial concluída com um membro da produção usando uma máscara de jumento, no México, Bolsonaro virou sinônimo de “burro“. Afinal, está à frente de um governo que quase derruba um dos principais ministro por uma montagem no WhatsApp; que levou ao alto escalão um email falso em nome de Greta Thunberg; e que, por quase um mês, perseguiu uma herança equivalente ao PIB nacional prometida em um golpe do tipo “príncipe nigeriano“.

Palhaçada

Bolsonaro já ouviu do primeiro brasileiro a interpretar o palhaço que ser chamado de Bozo deveria ser um elogio; colocou Netinho para cantar Milla, o presidente da Embratur para cantar “Ave Maria”, e já cantou com os ministros o Hino Nacional Brasileiro em um videoclipe sobre a Independência do Brasil.

Liberal nos costumes

Maior fã de si mesmo, Bolsonaro causou constrangimento ao enviar fotos oficiais do presidente ao STF e a embaixadores estrangeiros. E, claro, ao tentar comprovar um suposto histórico de atleta fazendo verdadeiras “flexões de pescoço” em público.

Bastante sinuoso

Como um alegado “conservador nos costumes”, interrompeu uma teleconferência porque um participante estavafazendo isolamento peladão em casa“. Em seguida, comentou que “o cara foi ficando com calor e foi tomar um banho frio“, que era um “quadro bastante sinuoso, (…) mas nós vimos, infelizmente“. Mas qualquer pudor presidencial foi às favas no que exibiu na TV a cicatriz da facada que sofreu em 2018, insistiu na piada racista com o “calibre” de um fã asiático, comparou o Brasil a uma virgem “que todo tarado de fora quer“, comentou em coletiva de imprensa que urinava na cama até os 5 anos de idade, e reclamou nas redes sociais de homens que se excediam no carnaval — com direito a, em seguida, perguntar cinicamente o que seria “golden shower“.

“Literalmente”

Carente de recato nas fuças, Bolsonaro condecorou dois dos próprios filhos. Duas vezes. Em menos de um mês. Sem conseguir disfarça a ascendência, o mais velho alegou que não prestou atenção ao, mesmo sendo contra, votar a favor do aumento do fundo eleitoral. O ZeroDois, aquele que chegou a vetar o acesso do presidente da República às próprias redes sociais, já reclamou que tem “literalmente” se matado para melhorar a comunicação do governo. E o Zero Tr… Bem, o Zero Três…

Bananinha

Enquanto buscava ser embaixador nos Estados Unidos, o Zero Três recebeu um cheque que já havia sido entregue ao vice-presidente, conseguiu traduzir errado uma frase com três palavras, e anunciava preparo à vaga citando um período em que teria fritado hambúrguer numa lanchonete que não possui hambúrguer no cardápio. Mais recentemente, conversou sobre os exames do pai ao vivo com a Fox News sem nem saber o que era covid-19. Por aqui, não só se permitiu um sempre constrangedor chá de revelação, como descobriu que teria uma filha atirando em um balão. E, ao participar de um programa de TV, incentivou uma competidora a citar o bordão que a oposição usava para tentar libertar o principal adversário político do clã.

Xadrez 0D

Os entusiastas do bolsolavismo costumam rebater uma lista tão contundente de lambanças lembrando que ninguém conseguiu bater tal projeto na eleição de 2018. Mas, se essa for a régua, o próprio PT venceu quatro disputas presidenciais. E o PSDB, único a vencer em primeiro turno duas eleições do tipo, não teria menos mérito.

Que povo?!

Também costumam explorar tanta estupidez como prova de que o presidente representaria uma genuína espontaneidade do povo brasileiro. O que, além de escancarar o preconceito de classe da trupe, ignora que as camadas mais humildes da população concentraram votos no candidato derrotado no segundo turno de 2018.

Negligência e bizarrice

Encurralados pelas crises geradas na própria base, o bolsolavismo vem ironicamente reclamando do que chama de “prudência e sofisticação“. O oposto disso seria “negligência e bizarrice”. Sem ironia, é o que o atual governo entrega. E certamente não era isto que o brasileiro queria quando foi às ruas exigir mudança.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Associated Press, BR Político, CNN Brasil, Correio Braziliense, Crusoé, Época, Estadão, Folha de S.Paulo, GaúchaZH, G1, Huff Post Brasil, IstoÉ, Metrópoles, O Antagonista, O Globo, TV e Famosos, TV Jornal, Último Segundo, UOL, Valor Econômico e Veja.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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