Donald Trump e Jair Bolsonaro
9 de março de 2020

Clima de fim do mundo

Após uma dúzia de altas seguidas, a cotação do dólar fechou a sexta-feira em baixa. Mas, desde a noite de domingo, o Brasil sabia que um tsunami financeiro viajava da Ásia ao Ocidente. Assim que os trabalhos se iniciaram nesta segunda, a moeda americana saltou de R$ 4,63 para R$ 4,79 abruptamente. As ações da Petrobras recuaram mais de 21% e, pela sexta vez na história, o Ibovespa recorreu ao circuit breaker – dispositivo que interrompe as atividades quando a baixa supera os 10% em relação ao pregão anterior.

Mesmo após intervenções do Banco Central, o dólar fecharia o dia cotado a R$ 4,72 em novo recorde nominal. A queda de 12% era a maior turbulência enfrentada pela Bovespa em mais de 21 anos.

O clima de fim do mundo veio de uma guerra de preços entre Rússia e Arábia Saudita, duas das três nações que mais produzem petróleo. Mas a temporada do novo coronavírus tem sido complicada.

Nos últimos 46 dias, o Ibovespa perdeu o que levou catorze meses para ganhar. Delineando a gravidade do momento, as commodities baixaram a níveis inferiores aos que resultaram na grave recessão do segundo mandato de Dilma Rousseff.

Claro que de nada ajuda Jair Bolsonaro, em provocação à única pessoa que pode aceitar um pedido de impeachment do presidente, enfurecer a cúpula dos demais poderes reforçando o convite para um ato que nasceu de um palavrão gritado ao Congresso.

Neste final de semana, Rodrigo Maia deixou chegar à imprensa que Marcos Lisboa daria um ministro da Economia melhor do que Paulo Guedes. Mas reagiu à provocação presidencial propondo uma agenda positiva que serviria de trégua.

O sucesso da manifestação golpista do próximo domingo segue uma incógnita, mas o recuo de alguns empresários e movimentos de rua contam a favor de um armistício – que, pelo histórico presidencial, terá vida curta.

Questão de princípios

No governo Temer, a “observância de princípios éticos e democráticos” era critério eliminatório para a compra de livros didáticos pelo MEC. O governo Bolsonaro excluiu o adjetivo “democráticos” deste trecho do edital.

Filhotismo

Um levantamento da Folha de S.Paulo confirmou algo que as próprias redes sociais já especulavam: mesmo com um presidente usuário de Android, as mensagens mais controversas dos perfis de Jair Bolsonaro são publicadas por um iPhone, fortalecendo a tese de que partem de Carlos Bolsonaro, cujo perfil fazia uso de iOS até pelo menos janeiro passado.

Perseguição

Jair Bolsonaro excluiu a Folha de S.Paulo da cobertura do encontro do brasileiro com Donald Trump nos Estados Unidos. Por aqui, a repórter Patrícia Campos Mello, alvo de episódio grotesco da misoginia presidencial, entrou com ação por danos morais contra o presidente da República – e contra Hans River do Rio Nascimento, depoente que forneceu a munição na CPMI das Fake News.

Máquina de moer reputações

De nada adiantou Drauzio Varella deixar claro que não tinha interesse na corrida presidencial. Neste domingo, apontaram a “máquina de moer reputações” ao médico por não deixar claro em matéria do Fantástico que abraçava uma trans que havia estuprado e assassinado uma criança. E infelizmente a falha jornalística não foi devidamente corrigida pela revista eletrônica.

Um de três

A chuva atrapalhou o ato convocado em São Paulo em celebração ao Dia Internacional das Mulheres. Mas a oposição tem outras duas manifestações convocadas contra o governo Bolsonaro: uma no próximo sábado, em memória dos dois anos da morte de Marielle Franco; outra no 18 de março, com pauta ampla que inclui até mesmo apelos pelo o impeachment de Bolsonaro.

Entre Aspas

“Sejamos claros: o principal fator de desestabilização política do país tem sido o próprio presidente, com suas provocações diárias e atitudes insólitas, como o impedimento a um grande jornal de acompanhar suas atividades no exterior.”

José Serra, senador, rompendo o silêncio sobre o elefante na sala.

Curtas

  1. Augusto Heleno, que chamou a “ABIN paralela” de “devaneio de amadores“, tranquilizou Rodrigo Maia no ano passado garantindo que uma aranpongagem reportada pelo presidente da Câmara já tinha acabado.
  2. Décio Brasil, ex-secretário do Esporte, acredita que foi exonerado do cargo por negar pedido de Jair Bolsonaro para empregar um amigo de Flávio Bolsonaro.
  3. Mesmo com o desmatamento na Amazônia quebrando recordes, o Ibama aplicou o menor número de multas desde 1995.
  4. Sem dar detalhes, Jair Bolsonaro adiantou que passará por um quinto procedimento cirúrgico desde o atentado que quase o matou nas eleições de 2018.
  5. Apesar da fidelidade canina do presidente brasileiro, Donald Trump evitou prometer que pouparia o Brasil de um tarifaço qualquer.
  6. Olavo de Carvalho, que andou dizendo que as igrejas evangélicas estão entre os responsáveis pelo que de mau acontece ao país, foi chamado pelo pastor Silas Malafaia de “idiota que vive em outro país dando palpite“.
  7. Um participante do CPAC, conferência conservadora que contou nos Estados Unidos com a presença de Eduardo Bolsonaro (e um punhado de aspones), foi exposto ao novo coronavírus antes mesmo da realização do evento.
  8. Por ser encarado como “tema sensível”, o YouTube vem causando polêmica ao desmonetizar vídeos que falam sobre o novo coronavírus.
  9. Ainda na sexta-feira, as ações da XP desabaram 13% em decorrência da notícia de que um escritório americano apurava a contabilidade fornecida pela empresa quando da abertura de capital.
  10. Ignorando que José Padilha dirigiu Ônibus 174, e entregando que não se deu ao trabalho de ver o segundo Tropa de Elite até o fim, a esquerda vem implicando com a escolha dele para a direção de uma série sobre o assassinato de Marielle Franco.

Desenhou

Um Pio

Vale Seguir

Marina Amaral compartilha no Twitter parte do resgate que faz de acervos históricos, em especial, a colorização de fotografias antigas.

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BR Político, Canal Tech, Crusoé, Correio Braziliense, Época, Estadão, Fantástico, Folha de S.Paulo, G1, Infomoney, IstoÉ, O Antagonista, O Globo, Reuters, Teleguiado, Terra e UOL.

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 7 de março de 2020 por Alan Santos, fotógrafo da Presidência da República. Nela, Donald Trump aplaude Jair Bolsonaro em visita à Florida, nos Estados Unidos.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Apesar de ninguém estar realmente se sentindo bem.

Newsletter?!

Antes de concluir a leitura, cadastre-se aqui para receber atualizações desta coluna diretamente em seu email.

Gostou do que leu?

Gostaria de ajudar? Clique aqui e saiba como.

Publicado por

Marlos Ápyus

Mais do que jornalista, um fã do jornalismo.

Deixe uma resposta