Grande História

Bolsonaro não pôs em dúvida a eleição de 2018, mas a de 2022

Jair Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e Romerto Britto

Sem apresentar qualquer prova, a deputada federal Bia Kicis acusou Rodrigo Maia de querer fraudar a eleição de 2022

Ontem, com a bolsa de valores vivendo a maior turbulência em 21 anos, o dólar quebrando mais um recorde nominal, a Itália somando 463 mortos em decorrência do covid-19, e o Brasil confirmando o 25º caso de um surto de novo coronavírus que se iniciou justamente de brasileiros que visitaram a Itália, o presidente da República, sem apresentar as provas que alegava ter, disse nos Estados Unidos que a eleição que o colocou no comando do país fora fraudada de forma a confirmar apenas no segundo turno uma vitória que teria ocorrido ainda no primeiro. Sim, é de acabar o fôlego.

A fala polêmica foi interpretada como uma tentativa de incendiar a militância para a manifestação golpista do próximo domingo. E de fato a jogada soou ensaiada.

“Quais são as provas, presidente?”

Há poucos dias, Daniel Silveira, deputado federal da ala bolsonarista do PSL, lançou no Congresso uma estranha Frente Parlamentar Mista pela Contagem Pública de Votos. Hoje, Bia Kicis, deputada federal da mesma laia, disse nas redes sociais que, “em 2022, Rodrigo Maia conta com essas urnas e a fraude estará aperfeiçoada“. Carlos Bolsonaro aproveitou o turno para compartilhar uma mensagem que dizia: “Bolsonaro sabe que eles não vão deixar ele ganhar em 2022, já está se preparando. Temos de nos preparar também“.

Além de próxima do presidente, Kicis é a autora da PEC do Voto Impresso, iniciativa que tenta reviver uma das raras emendas aprovadas por Jair Bolsonaro em 28 anos no Congresso – e posteriormente derrubada no STF.

Ainda na noite de ontem, representantes do Ministério Público Eleitoral pediram explicações a Karina Kufa, advogada do presidente. Para acabar com a boataria, o MPE avalia pedir uma auditoria internacional das urnas eletrônicas.

Na tarde de hoje, o TSE reagiu lembrando que “eleições sem fraudes foram uma conquista da democracia no Brasil, e o TSE garantirá que continue a ser assim“.

Chantagem golpista

Soma-se às tentativas de esquentar a crise política o pedido de Jair Bolsonaro para que o Congresso rejeite um dos projetos enviados ao parlamento pelo próprio presidente da República. A chantagem incluiu a insinuação de que cancelaria a manifestação de domingo caso o desejo presidencial fosse atendido. O texto é parte do acordo –que Bolsonaro nega ter feito, mas fez– para que o Legislativo mantenha o controle de quase dois terços dos R$ 30,1 bilhões do orçamento impositivo.

Apoio do Clube Militar

A tal manifestação golpista conta com o apoio do Clube Militar, que convocou manifestantes argumentando que “não podemos permitir que se estabeleça um parlamentarismo branco“. O presidente e o vice-presidente da República são sócios da agremiação.

Jogo virando

Apesar das tentativas de distração, Jair Bolsonaro vem perdendo a batalha nas redes sociais para a crise econômica. Entre 2 e 6 de março, por volta de 81% das mensagens compartilhadas sobre o PIB de 2019 eram desfavoráveis ao governo. Na Record, uma entrevista exclusiva do presidente implicou na queda de 10% da audiência.

Não quis testar

Ignorando apelos para que a manifestação do próximo dia 15 seja cancelada em decorrência do avanço da covid-19, Bolsonaro minimiza o temor argumentando que o “coronavírus está superdimensionado“. Enquanto isso, Donald Trump, que andou recebendo o presidente brasileiro, disse não haver necessidade de fazer um teste para saber se fora infectado pelo novo coronavírus – o presidente americano prestigiou um evento que contou com a participação de uma pessoa infectada.

Sem preocupação

Rodrigo Maia (presidente da Câmara), Mansueto Almeida (secretário do Tesouro Nacional), Izalci Lucas (senador) e João Carlos Bacelar (deputado federal) participaram na segunda-feira de um encontro em Brasília que viria a ser cancelado nesta terça. Priscila Cruz, que teve contato com todas as autoridades uma vez que produziu o evento, está sob suspeita de infecção pelo novo coronavírus. Questionado se está preocupado, Maia ironizou: “o presidente disse que não há motivos para termos medo“.

Entre Aspas

“O problema não está no Congresso. O Congresso já mostrou que, na pauta de reestruturação do Estado, nós estamos prontos para colaborar.”

Rodrigo Maia, presidente da Câmara Federal, ainda evitando nomear a origem do problema.

Curtas

  1. Em apenas 24 horas, o novo coronavírus matou 168 pessoas na Itália – ou catorze mortes a mais que as contabilizadas no acidente com o Boeing 737 da Gol em 2006.
  2. Na turbulência de ontem, as empresas listadas na bolsa brasileira perderam R$ 431 bilhões em valor de mercado.
  3. Só a Petrobras perdeu R$ 91 bilhões.
  4. Para efeito de comparação, em janeiro de 2016, o valor de mercado da estatal havia caído a R$ 73,7 bilhões.
  5. Ao todo, em 2020, tais empresas perderam até ontem mais de um trilhão de reais – sempre em valor de mercado.
  6. A CPMI das Fake News descobriu que uma das páginas que atacavam adversários de Jair Bolsonaro nas redes sociais era editada por computadores do Senado.
  7. No governo Bolsonaro, o tempo médio de espera para a obtenção do salário maternidade saltou de 22 para 65 dias.
  8. Os racistas que proferiram injúrias raciais contra a jornalista Maju Coutinho foram condenados a penas de cinco a seis anos em semiaberto, além de multa.
  9. Um grupo de militantes ligadas ao MST achou que a semana em que o presidente da República apoia uma manifestação golpista era ideal para depredar a estrutura do Ministério da Agricultura.
  10. A imprensa se dividiu entre noticiar que Jair Bolsonaro endureceu as regras para vôos da FAB, e alertar que o presidente preservou a mordomia de Rodrigo Maia, Dias Toffoli e Davi Alcolumbre.

Desenhou

Um Pio

Fontes

Essa coluna só pôde ser escrita graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Crusoé, Época, Estadão, Exame, F5, Folha de S.Paulo, Gazeta do Povo, G1, O Globo, O Antagonista, Terra, UOL, Valor Ecômico e Veja.

Jair Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e Romerto Britto

A imagem que ilustra essa edição foi registrada em 9 de março de 2020 por Alan Santos, fotógrafo da Presidência da República. Nela, Jair e Michelle Bolsonaro visitam o estúdio do pintor Romero Britto.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Canção do dia

Porque ainda há dúvidas se nunca faremos senão confirmar a incompetência da América católica que sempre precisará de ridículos tiranos.

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