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Ao mercado brasileiro

01.01.2003 - Brasília/DF - Acompanhado das esposas, FHC transmite a faixa presidencial para Lula. Foto: Marcello Casal Jr./ABr

Da eleição de Fernando Collor de Mello ao surgimento do Lulinha Paz & Amor, uma vitoriosa construção publicitária.

Fernando Collor de Mello terminou o primeiro turno de 1989 com 30% dos votos. Vencida por Lula, a disputa pela segunda vaga do segundo turno contou ainda com Leonel Brizola na terceira posição; e, um pouco mais atrás, Mário Covas. O trio somou 30 milhões de votos, ou 50% a mais do que os 20 milhões que o candidato do PRN recebeu. Natural, portanto, imaginar que união levaria à vitória. Desta forma, PT, PCdoB, PSB, PDT e PSDB pediram para que os eleitores votassem 13 no 17 de dezembro de 1989.

Mas 53,03% da população preferiram votar no candidato que, dentre um cardápio variado de diabruras, utilizou o último debate para alertar que o adversário confiscaria a poupança do povo brasileiro, coisa que o próprio vencedor já cogitava, e fez um dia após tomar posse como presidente do Brasil. O Plano Collor tinha por objetivo conter a inflação galopante. Mas só serviu para o PIB brasileiro, que crescera 3,28% no último ano do governo Sarney, encolher 3,10% no primeiro ano da nova gestão.

Frente ampla

Como a crise persistiu por mais dois verões, as forças políticas se uniram em Brasília pelo impeachment do presidente. A articulação envolveu até mesma uma visita de Lula e Aloizio Mercadante a Roberto Marinho, padrinho eleitoral de Collor.

Só com os trabalhos da CPI do Esquema PC já avançados, no que perceberam que o presidente cairia com ruas vazias, o PT convocou UNE e CUT para referendarem o processo com os caras-pintadas. Os atos seriam cobertos com um empenho bem superior ao que a Globo apresentara na cobertura das Diretas Já.

Um novo governo

O escândalo de corrupção denunciado pelo irmão do presidente foi explorado como motivo. Collor até tentaria renunciar para manter direitos políticos, mas o Senado, no 29 de dezembro de 1992, cassaria o mandato presidencial independente disso. Com papel ativo no impeachment, o PT preferiu continuar com Lula, eterno favorito na corrida elitoral, na oposição. Mas indicou —em vão— José Serra ao Ministério da Fazenda de Itamar Franco. Em paralelo, Fernando Henrique Cardoso garantia o Itamaraty para o PSDB.

Presidencialismo x parlamentarismo

O primeiro grande embate entre tucanos e petistas se deu no plebiscito de 1993. O resultado indicava que Lula fizera bem em seguir opositor, uma vez que o presidencialismo, defendido por PT, PDT, PMDB, PTB e PFL venceu por 69% a 31% o parlamentarismo encampado pelo PSDB. Um mês depois, com apenas 7 meses de governo Itamar, FHC assumiria como quarto ministro da Fazenda daquela gestão. E ficaria menos de um ano no cargo, mas tempo suficiente para mudar a moeda de Cruzeiro para Cruzeiro Real, e dar início, ainda em fevereiro de 1994, ao plano que acabaria com a hiperinflação.

Corrida presidencial

Quando Fernando Henrique entregou em 30 de março o Ministério da Fazenda para Rubens Ricupero, Lula liderava a corrida presidencial 28 pontos percentuais à frente do tucano. Quando, em 26 de julho, o real completava 25 dias de vida, ambos surgiam tecnicamente empatados no Datafolha. Enquanto Lula alertava que o Plano Real seria um estelionato eleitoral semelhante ao observado 8 anos antes com o Plano Cruzado, o petismo xingava o PSDB de neoliberais, dada a aliança deste com o PFL (para garantir capilaridade no Nordeste). Mas de pouco adiantou. Com 54% dos votos, o sociólogo findou eleito ainda em primeiro turno, um feito que só seria igualado em 1998 pelo próprio FHC, não sem antes, sob suspeita de compra de votos, aprovar a emenda da reeleição — certamente o pior legado da passagem tucana pelo Palácio do Planalto.

Mar revolto

O segundo mandato de FHC seria bem mais turbulento. De cara, as acusações de estelionato eleitoral finalmente fariam sentido, uma vez que, como alertado, o dólar sofreu uma alta de 74% nos primeiros 63 dias do novo mandato. Mas houve também um pedido de impeachment da parte do PT (abortado no plenário da Câmara), apagões e a ressaca de crises internacionais que sacudiam a economia diretamente da Argentina, da Rússia, dos Tigres Asiáticos, e até da queda do World Trade Center em Nova York.

Oportunidade

Mesmo com o capitão demonstrando habilidade na tempestade, a oposição surfou cada uma das ondas formadas, o que naturalmente moldou o discurso para a eleição seguinte, fortemente calcado na geração de emprego, combate à corrupção e ataque aos compromissos assumidos com FMI. Este último, contudo, rendeu o “risco Lula”. E o dólar, que abriu o ano da eleição cotado a R$ 2,30, encararia uma alta de 21% até 24 de junho de 2002, quando o líder isolado da disputa lançaria, orientado pelo próprio governo FHC, a “Carta ao povo brasileiro“.

Sem afagos governistas

Não era um texto longo. Do título à assinatura, os 11 mil toques renderam 48 parágrafos. Que, como era de se esperar de um candidato de oposição, abriam defendendo uma mudança para “crescer, incluir pacificar“. Não afagava a gestão tucana, tratada como um modelo esgotado a ser urgentemente superado. Em contrapartida, prometia “um projeto nacional alternativo, que faça o Brasil voltar a crescer, a gerar empregos, a reduzir a criminalidade, a resgatar nossa presença soberana e respeitada no mundo“.

Coalizão suprapartidária

Inclusivo, o texto dialogava com “lideranças populares, intelectuais, artistas e religiosos dos mais variados matizes ideológicos“, além de “prefeitos e parlamentares de partidos não coligados com o PT“, “parcelas significativas do empresariado“, enfim… Uma “vasta coalizão, em muitos aspectos suprapartidária“. Mas, superados os acenos à própria militância, a carta buscava quem faltava. E prometia ao mercado “combinar o incremento da atividade econômica com políticas sociais consistentes e criativas”, reformas estruturais, tributária, agrária, previdenciária e trabalhista, além de programas contra “a fome e a insegurança pública“.

Prudência e responsabilidade

Mais importante do que tudo, Lula abria mão de uma revolução: “Será necessária uma lúcida e criteriosa transição entre o que temos hoje e aquilo que a sociedade reivindica“. E garantia que a “premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos“. Apesar de transferir a FHC a culpa pelo “risco Lula”, o texto prometia “dialogar com todos os segmentos da sociedade e com o próprio governo, de modo a evitar que a crise se agrave e traga mais aflição ao povo brasileiro“.

Neoliberalismo

O texto evitava falar a expressão “liberalismo”, mas insistia que o PT trabalhava “para que os contratos sejam honrados e o país recupere a liberdade de sua política econômica orientada para o desenvolvimento sustentável“. Em seguida, Lula fala em “compromisso histórico com o combate à inflação, mas acompanhado do crescimento, da geração de empregos e da distribuição de renda, construindo um Brasil mais solidário e fraterno, um Brasil de todos“. Já próximo do fim, o candidato falava em “ordenar as contas públicas e mantê-las sob controle“, e desabafava: “O país não suporta mais conviver com a ideia de uma terceira década perdida“. Na conclusão, voltava ao início, reclamando mudanças corajosas, porém, responsáveis.

Remetente ou destinatário

Diferente do que prometia, a carta não era uma mensagem ao povo brasileiro, mas o PT, alegadamente em nome do povo, pedindo a benção do mercado. Em benefício de uma seleção do que havia de mais virtuoso em duas décadas de agenda partidária, ignorava todo um passado beligerante. Apesar de algumas posturas dúbias, foi recebida como um compromisso por escrito com o Plano Real. Não conseguiu conter a alta do dólar, que se aproximou dos R$ 4,00 no segundo turno, um recorde histórico que, atualizado pela inflação, superaria os R$ 11,00 hoje em dia. Todavia, pavimentou o caminho para o petismo conquistar o primeiro de quatro mandatos presidenciais.

Estelionato eleitoral

Treze anos depois, em latim típico de quem doura argumentos em embates jurídicos, Michel Temer lembraria ao PT que “as palavras voam, mas os escritos permanecem“. Os escritos da “Carta ao ‘mercado’ brasileiro“, no entanto, começaram a voar antes mesmo de FHC, em 1º de janeiro de 2003, passar a faixa presidencial para Lula. Os detalhes de mais esse estelionato eleitoral, todavia, serão relembrados nos próximos episódios dessa série. Para conferir o episódio anterior, basta clicar aqui.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Agência Brasil, El País, Estadão, Folha de S.Paulo, IstoÉ, Jornal Nacional, Meia Hora, O Antagonista, O Globo, Poder 360, UOL, Veja e Valor Econômico.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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