Grande História

É preciso conversar sobre neofascismo

14.05.2020 - Brasília/DF - Presidente da República, Jair Bolsonaro na rampa do Palácio do Planalto. Foto: Alan Santos/PR

A inspiração americana, o golpismo brasileiro, a tentativa de frente ampla, a revolta antifa, as políticas eugenistas, e muito mais.

Nas redes sociais, muitos viam nos acontecimentos deste domingo um apoio brasileiro aos protestos da comunidade negra americana contra o assassinato de George Floyd. Lá, a revolta não só se aproximou da Trump Tower, como forçou o presidente americano a se esconder em um bunker na Casa Branca, que teve todas as luzes apagadas por questões de segurança. Encurralado, Donald Trump prometeu classificar os “antifas” como grupo terrorista.

Mas o próprio Brasil tem motivos para se indignar. Afetado pela pandemia do novo coronavírus, há quase três meses o país tolera sabotagens ao isolamento social da parte de manifestações golpistas endossadas pelo presidente da República. Tais atos criminosos forçam a elevação do números de casos, com o total de óbitos chegando aos 30 mil. Em resposta, as autoridades competentes têm se limitado a inócuas notas de repúdio e movimentos de bastidores que ainda não chegam ao público. Era uma questão de tempo para que a paciência se esgotasse.

Eclipse oculto

Ainda no sábado, um manifesto tentou formar uma frente de oposição a Jair Bolsonaro emparelhando assinaturas de personalidades que toparam deixar as diferenças de lado na defesa da democracia. Mas a iniciativa seria eclipsada no que integrantes de torcidas organizadas de futebol, igualmente na defesa da democracia, também colocaram as diferenças de lado encarando os golpistas que sabotavam o combate à covid-19 nas ruas das principais capitais do Brasil.

Batalha da Paulista

Em São Paulo, o confronto ganhou ares de “junho de 2013” quando um “antifa” bateu boca com um governista que carregava a bandeira de um movimento de extremista da Ucrânia. Iniciada a confusão, a Polícia Militar nem fez questão de esconder que tinha lado. Enquanto protegia os bolsolavistas, dispersou com bombas de efeito moral os membros das torcidas, que revidavam com pedras, bloqueios improvisados e muito vandalismo.

Deu bandeira

Num veículo governista, o embaixador da Ucrânia trabalhou a ideia de que a polêmica bandeira não seria nazista, mas apenas um antigo estandarte do nacionalismo ucraniano. É sabido, no entanto, que a extrema-direita vive a se apropriar de símbolos clássicos num eterno resgate de valores. E que, de fato, um dos movimentos de extrema-direita a utiliza como emblema na ex-república da União Soviética. Contudo, tanto interesse da direita brasileira na nação do leste europeu nasceu de matérias sobre políticos que eram literalmente arremessados por extremistas nas lixeiras de Kiev.

De Weimar

A preocupação com o nazismo do governo Bolsonaro, todavia, tem razão de ser. Tanto que Celso de Mello compartilhou entre os mais próximos que, “GUARDADAS as devidas proporções, O ‘OVO DA SERPENTE’, à semelhança do que ocorreu na República de Weimar (1919-1933), PARECE estar prestes a eclodir NO BRASIL“. Na sexta, o decano do STF enviou a Augusto Aras uma notícia-crime contra as manifestações golpistas de Eduardo Bolsonaro. Semanas antes, já havia chamando os bolsolavistas de “fascistoides“.

Winter is coming

No sábado, um desses grupos fascistoides marchou por Brasília carregando tochas e máscaras. Era uma óbvia referência à marcha supremacista de Charlottesville, em 2017. Que, por sua vez, emulava manifestações da Ku Klux Klan, o movimento racista norte-americano cujo um antigo líder confessou ver em Bolsonaro alguém que soa” como eles. A líder da milícia brasiliense, que usou um pseudônimo nazista mesmo quando integrou o ministério dos Direitos Humanos, já tem um pedido de prisão redigido na PGR.

“Coincidências”

As “coincidências” não param por aí. Neste domingo, Bolsonaro compartilhou um vídeo que recorria a um bordão de Benito Mussolini. Dias antes, topou ser filmado virando um copo de leite, o que não passava de uma ação promocional de produtores rurais, mas lá fora é tido como um dos vários dog whistles soprados por supremacistas brancos. No ano passado, numa fala extremamente infeliz, o presidente já havia declarado que, ainda que não pudesse esquecer, seria possível perdoar o holocausto. E, por mais que tenha nascido do grito dos paraquedistas do Exército, o “Brasil acima de tudo” é questionado há tempos no próprio meio militar por lembrar o “Alemanha acima de tudo” bradado pelos nazistas.

Lógica de governo

Em 2019, o mesmo Exército homenageou um major alemão condecorado por Adolf Hitler. Antes, o coronel Muniz Costa já havia reclamado que Olavo de Carvalho citava teóricos que inspiraram o Terceiro Reich, mas o Clube Militar retirou o desabafo do ar. Sob fortes elogios do chefe, o então secretário de Cultura abriu 2020 lançando uma campanha que parafraseava Joseph Goebbels. Em fevereiro, um dos conselheiros do presidente usou a expressão que os nazistas sacavam ao se referir ao holocausto para definir o ato golpista que, em 15 de março, contaria com a presença do presidente da República. No início de maio, foi a vez de a SECOM parafrasear o lema que os alemães estampavam nos campos de extermínio.

Política de governo

Mas a coisa já evoluiu para além da simbologia. Arnaldo Lichtenstein, um dos diretores do Hospital das Clínicas em São Paulo, deixou claro que tratar como descartável a vida dos brasileiros de saúde fragilizada, como faz o presidente da República, é eugenismo. De fato, em reunião fechada, a superintendente da SUSEP simplesmente tratou como positiva a concentração da covid-19 em idosos, uma vez que ajudaria a economia ao reduzir o rombo da Previdência. Na maior crise sanitária em um século, o país está há 17 dias sem ministro da Saúde. A pasta tem sido tomada por militares, e o Exército nem permite que saia qualquer comunicação oficial citando isolamento e/ou distanciamento social. Relatórios de inteligência sobre os benefícios da quarentena, inclusive, foram simplesmente desprezados por Bolsonaro.

17 é rebelião

Com o total de óbitos de brasileiros na casa das dezenas de milhares, o presidente se preocupa mais em armar a população e chamar de covarde o ex-ministro que o atrapalhava na missão. Em resposta, Sergio Moro confirmou o que se percebe ao conferir as imagens da reunião ministerial de 22 de abril: Bolsonaro quer liderar uma “rebelião armada” contra os prefeitos e governadores que combatem o novo coronavírus.

O que será o amanhã

Os antifas brasileiros já marcaram um novo ato para o próximo domingo em São Paulo. De forma inesperada, Jair Bolsonaro pediu para que os próprios apoiadores não saiam às ruas. Resta conferir se tudo não passa de jogo de cena. De qualquer forma, o ideal seria que ambos os lados respeitassem a urgência sanitária, e se manifestassem nas próprias casas, seja pelo uso das redes sociais, seja pelo batucar de panelas.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Agência Brasil, BBC, BR Político, Canal Rural, CNN Brasil, Crusoé, El País, Época, Estadão, Estado de Minas, Folha de S.Paulo, IstoÉ, Metropoles, Nexo, NY Times, O Antagonista, O Globo, Superinteressante, The Intercept, UOL, Veja e Vortex Media.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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