Grande História

O gabinete do ódio é o que mais tolhe a liberdade de expressão no Brasil

25.05.2020 - Brasília/DF - Presidente da República Jair Bolsonaro, participa por videoconferência da Solenidade de Posse do Subprocurador-Geral da República Carlos Alberto Vilhena no cargo de Procurador Federal dos Direitos do Cidadão para o biênio 2020-2022. Foto: Marcos Corrêa/PR

A lei das fake news, as testemunhas do gabinete do ódio, o risco de cassação, o chilique de Olavo, o socorro de Bolsonaro, e muito mais.

Durante a maior crise sanitária em um século, o Congresso brasileiro se vê obrigado a votar uma lei delicadíssima que, se mal calculada, pode trazer prejuízo à liberdade de expressão na web. E tudo isso se faz necessário por culpa de Jair Bolsonaro. Porque o presidente da República levou para o Palácio do Planalto a máquina de linchamentos virtuais que o elegeu. Tocada por ex-assessores de Carlos Bolsonaro, ela viria a ser apelidada de “gabinete do ódio“.

Até Sergio Moro testemunhou o uso da expressão da parte de integrantes do Governo Federal. E um dos donos da AM4, empresa que coordenou o marketing eleitoral da campanha presidencial vitoriosa, já reconheceu publicamente que o debate político tem sido grosseiramente manipulado por robôs.

Risco de cassação

Seis meses antes da eleição, Luiz Fux, ainda como presidente do TSE, garantiu que o uso do que chamava de “fake news” poderia cassar os vencedores de 2018. Hoje, o Ministério Público Eleitoral concordou com o compartilhamento de provas levantadas pelo STF contra o gabinete do ódio. Ao todo, a vitória da chapa Bolsonaro/Mourão é questionada em 8 ações no Tribunal Superior Eleitoral. Na que conseguiu o compartilhamento de provas, Fernando Haddad reclama que empresários teriam bancado o disparo de mensagens contra os adversários da dupla vencedora.

Chilique olavete

No último final de semana, Olavo de Carvalho, em meio a duras críticas ao empresário Luciano Hang, ameaçou derrubar o governo Bolsonaro caso não fosse socorrido pelo presidente da República. O filósofo amador, que encampou várias das frituras tocadas pelo gabinete do ódio, estava desesperado por perder uma ação de R$ 2,8 milhões para Caetano Veloso. De quebra, tem digerido um boicote publicitário a um dos projetos que lançou na web.

Empresários

Com aval de Jair Bolsonaro, Luciano Hang recorreu justamente a um grupo de empresários para inteirar a “vaquinha” milionária. Mas o clube de milionários negou o socorro. Ainda no desabafo do final de semana, o filósofo amador garantiu que não é manipulado por “aluninhos” que “começaram ontem“. No dia seguinte, Jair Bolsonaro promoveu Filipe Martins, um dos “aluninhos” de Olavo que “começaram ontem“, a chefe da assessoria especial de Assuntos Internacionais.

Aluninho

Quando depôs à CPMI das Fake News, Joice Hasselmann citou Filipe Martins como um dos integrantes do gabinete do ódio. Mas, ainda que o inquérito tenha chegado à antessala do presidente, o assessor internacional de Bolsonaro vem sendo poupado do que foi noticiado até aqui sobre a apuração de Moraes.

Sem dó

Os alvos do inquérito, no entanto, não poupam a deputada federal. Carla Zambelli, por exemplo, foi flagrada insinuando que em até 4 semanas uma assessora de Joice seria atingida por uma operação da PF contra “fake news”. Em resposta, Hasselmann protocolou no STF uma notícia-crime contra companheira de partido.

Sem asilo

Em paralelo, uma militante bolsolavista que faz uso de um pseudônimo nazista, enquanto organizava atos que lembravam as marchas racistas da Ku Klux Klan, buscou sem sucesso um asilo político nos Estados Unidos.

Importando o que há de pior

Mas não é mera coincidência. Conscientemente ou não, já há algum tempo os influenciadores digitais bolsolavistas têm servido de ponte para alguns argumentos explorados por extremistas nos Estados Unidos e Europa. Como, por exemplo, o 13/52 & 13/90, estatísticas deturpadas por supremacistas brancos ao comentar crimes supostamente cometidos por negros. Com isso, insinuam que a comunidade negra seria mais propensa a cometer delitos de tamanha gravidade.

Desserviço

A ex-jogadora de vôlei Ana Paula Henkel não usou exatamente a mesma estatística, mas explorou lógica semelhante em uma breve postagem nas redes sociais, o que rendeu reclamações contra racismo e duras críticas de Isabel Salgado, também ex-atleta. Todavia, em vez de reconhecer o vacilo, Ana Paula preferiu ameaçar de processo quem a chamou de racista. Henkel não integra qualquer gabinete do ódio, mas agradeceu publicamente o apoio de dois deputados estaduais que estão no alvo do inquérito tocado pelo STF.

Mentiras que matam

Nada soa mais grave, contudo, do que o mundo de desinformação que os alvos do inquérito espalham para validar narrativas de interesse do governo Bolsonaro. Em especial, aquelas que colocam em risco a saúde da população. Como a informação falsa de que caixões eram enterrados vazios, uma mentira que ganhou força após uma entrevista da deputada federal Carla Zambelli. Ou a história de que a morte por um estouro de pneu havia sido contabilizada como covid-19, uma lenda urbana compartilhada pela deputada federal Bia Kicis. Com o mundo já se protegendo da pandemia, Olavo de Carvalho insistia até mesmo que não havia ainda a confirmação de uma única morte causada pelo novo coronavírus.

Líder mundial

Até o presidente da República, cujas redes sociais sofrem interferência de Carlos Bolsonaro, teve conteúdo derrubado por falsamente alegar que o novo coronavírus havia encontrado uma cura. Mas esses são apenas alguns exemplos das mentiras que ajudaram o povo brasileiro a fazer do próprio país a nação em que mais se morre por covid-19 em todo o mundo.

Alguém precisa fazer algo

Hoje, o candidato democrata à Casa Branca afirmou que “não podemos superar este momento e, mais uma vez, dar as costas sem fazer nada“. Joe Biden, claro, fazia uma referência ao drama da comunidade negra dos Estados Unidos. Mas o recado também serve ao Brasil. Aquilo que o governo Bolsonaro tratou e ainda trata como “gripezinha” já matou mais de 38 mil pessoas. Na Argentina, que tem um quinto da população, matou menos de 700 habitantes. Proporcionalmente, morre 11 vezes mais brasileiros.

A origem do problema

É louvável a preocupação com a liberdade de expressão. Mas não dá mais para se assistir inerte ao que tanta desinformação faz com o Brasil. E não se conhece neste país fábrica maior de mentiras do aquilo que se convencionou chamar de gabinete do ódio.

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: Aos Fatos, CNN Brasil, Congresso em Foco, Correio Braziliense, Época, Estadão, Exame, Folha de S.Paulo, G1, O Antagonista, O Globo, The Intercept e UOL.

Não existe país decente sem imprensa livre.

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