Foto: Larisa Koshkina/Pixabay
Grande História

Como a internet fragiliza as democracias

A entrada do Estado para arbitrar o jogo é uma decisão que não mais pode ser postergada.

Apesar de o primeiro se tratar de um motor de busca, e o segundo, de uma rede social, Google e Facebook competem em um mesmo mercado. Como o usuário não paga para utilizá-los, os serviços se sustentam com verba de anunciantes que até bancam a mera exibição das próprios peças publicitárias, mas investem um valor muito mais alto para que os anúncios sejam clicados.

O jornalista Danny Sullivan percebeu a magnitude do que estava acontecendo, destacando no próprio blog que o Google havia anunciado em em 4 de dezembro de 2009 “a maior mudança já ocorrida em mecanismos de busca“. Daquela data em diante, o sistema não mais entregaria aos visitantes os resultados mais relevantes da web, mas o conteúdo que o algoritmo calculava ser mais interessante ao usuário em questão.

Os engenheiros haviam confirmado que os anúncios recebiam mais cliques quando associados a temas com os quais o leitor estava familiarizado. Para otimizar as vendas, os softwares passaram então a explorar todo tipo de artimanha que tirasse o consumidor do anonimato. Dois anos depois, os 50 sites mais visitados do mundo já analisavam uma média 64 cookies nos navegadores dos visitantes. Aquelas informações alimentavam um gigantesco banco de dados vendido a marcas que otimizavam a verba publicitária mirando alvos mais certeiros. Em outras palavras, os hábitos do chamado “internauta” eram convertidos em produtos.

O filtro invisível

Em O filtro invisível: O que a internet está escondendo de você, Eli Pariser batizaria o 4 de dezembro de 2009 como início da “era da personalização“. Para o presidente da MoveOn, a internet deixava de ser um ambiente em que a sociedade exercitava a tolerância, e se fragmentava em bolhas virtuais que, ao não enxergar as bolhas vizinhas, viviam a reforçar os próprios vícios. Lançado ainda em 2011, o livro antecipa com louvável destreza os problemas que a humanidade enfrentaria na década que se iniciava.

Sim, era comum que, ao término de uma longa jornada, o indivíduo se encaixasse numa tribo com a qual compartilhasse os mesmos valores. Mas os serviços virtuais potencializaram o fenômeno. Pior: sem a anuência ou mesmo ciência da parte dos principais afetados pela mudança. Segundo Pariser, a bolha virtual seria “uma força centrífuga que nos afasta uns dos outros“.

Com capacidade para analisar até os sentimentos dos usuários, o algoritmo distorcia inclusive a realidade dos mais estudados. Pariser destaca, por exemplo, que a mentira de que Barack Obama seria muçulmano avançou principalmente junto à camada da população que ostentava um diploma universitário. O autor lembra ainda um experimento de 1977, dos psicólogos Hasher Lynn e David Goldstein, para alertar que a mera repetição do equívoco faz com que as pessoas acreditem mesmo nas ideias mais equivocadas. E que o viés da confirmação é capaz de fazer com que o ser humano enxergue tudo o que queira enxergar.

Pariser vai além. E adverte que, ao sonegar informações valiosas, os filtros dos algoritmos reduzem os caminhos pelos quais a mente humana pode percorrer, limitando até mesmo a criatividade e a capacidade de aprendizado. Por coincidência (ou não), a internet se converteria num ambiente que valoriza menos a inovação, e mais a capacidade de entregar resultados.

Contudo, a primeira grande vítima seria a imprensa livre.

Antidemocrático

Se o jornalismo está em crise, a democracia está em crise. E, antes mesmo de 2011, serviços gratuitos de “classificados online” tiraram 18 bilhões de dólares só da imprensa americana. Em paralelo, as redes sociais assumiram uma curadoria que, antes, cabia aos editores dos jornais. Com a diferença de que o jornalista empresta o próprio nome a um trabalho guiado por códigos de ética, enquanto o algoritmo agia nas sombras, priorizando meramente o que renderia mais lucro. Se, nos jornais, havia uma parede separando a redação do setor comercial, em serviços como o Facebook, a seleção das pautas era feita pelo próprio “publicitário”. Com um adendo que Pariser nem chega a abordar: antes de compartilhá-la a bilhões de usuários, o algoritmo jamais checa a veracidade da informação.

Por óbvio, as consequências políticas do novo modelo demandavam preocupação. A década se iniciava com a humanidade consumindo informações filtradas por um grupo minúsculo de empresas, e justo as que sabiam “tudo” sobre todos. Se, na internet, o algoritmo vigora como uma lei, a vida digital era “legislada” por engenheiros de vinte e poucos anos que, sem prestar contas a um único eleitor, não mediam as consequências das próprias decisões.

Pariser chega a questionar o Google dos limites éticos do trabalho lá desenvolvido, mas não recebe qualquer resposta satisfatória da assessoria de comunicação. O autor até reconhece que há muita gente bem intencionada no meio. Mas observa, por exemplo, que mesmo Mark Zuckerberg seguia tutelado por Peter Thiel, um bilionário excêntrico que não via problema em, também por exemplo, afirmar ao mundo que “a extensão do direito de voto às mulheres” transformou “a noção de ‘democracria capitalista’ numa contradição em termos”. Não por acaso, o CEO do Facebook vinha a público defender que “a morte de um esquilo na frente da sua casa pode ser mais relevante para os seus interesses imediatos do que a morte de pessoas na África“. E mantinha cláusulas na política de privacidade que o permitia alterar regras retroativamente — o que é uma indecência, para dizer o mínimo.

Pariser se preocupava com o uso político daquelas ferramentas. Já em 2011, alertava que crescia “um mercado de informações sobre o que fazemos na rede“. Que, com cada usuário enxergando uma internet própria, mesmo os jornalistas teriam dificuldade para monitorar e verificar os fatos disseminados pelos candidatos menos escrupulosos. Que seria simples a um projeto autoritário distorcer a realidade meramente manipulando a curadoria realizada por um punhado de algoritmos. Que, “em vez de descentralizar o poder, a rede de certa forma o concentra“. Ainda segundo o autor, “um dos primeiros efeitos políticos da bolha dos filtros seria fazer com que mais e mais pessoas se transformem em eleitores preocupados com um único tema“.

Consequências

Em 2016, o Reino Unido optou por deixar a União Europeia, e os Estados Unidos levaram Donald Trump à Casa Branca. Em 2018, o Brasil levou Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto. As campanhas das duas primeiras anomalias trabalharam com a Cambridge Analytica, uma empresa de análise de dados que mapeou o interesse dos eleitores, otimizando a penetração dos vencedores. Na eleição que rendeu a vitória da terceira anomalia, empresas fraudavam CPFs para disparos de mensagens em massa no WhatsApp. Mas o grande peso veio mesmo de uma “máquina do ódio” que assassinava reputações promovendo linchamentos virtuais. E, de tão bem sucedida, seria impunemente convertida em gabinete presidencial no primeiro dia do mandato.

As gigantes do Vale do Silício, no entanto, se habituaram a uma postura francamente covarde. Nas palavras do próprio Pariser, os grandes nomes da publicidade online “são revolucionários sociais quando lhes convêm, e amorais quando não“. Atuam de forma obscura reclamando proteção às próprias crias. Mas a falta de transparência tem por primeiro efeito livrá-los da responsabilidade pelas decisões que tomam.

De acordo com Pariser, as empresas de tecnologia precisavam ser mais transparentes, oferecendo ao usuário mais controle sobre o conteúdo consumido. De preferência, ativando por padrão a configuração mais recomendada em um uso saudável da rede. Além de explicitar “quais informações os personalizadores possuem “, era também mandatório esclarecer “a forma como usam esses dados“. Seria crucial ainda que os algoritmos refutassem as próprias teses que possuem sobre cada usuário, de forma a testar se, diante de alternativas viáveis, o indivíduo não escolheria um caminho menos tóxico.

Tarde demais

Nove anos depois de o livro de Pariser alertar do risco de as bolhas virtuais viciarem a sociedade nos próprios equívocos, o Facebook constatou que dois terços dos integrantes de fóruns extremistas se inscreveram nos grupos após recomendações da própria plataforma. E que a curadoria gratuita oferecida pelo algoritmo corriqueiramente promoveu na rede a negação do Holocausto. No Google, as teorias conspiratórias teriam tanta liberdade que renderiam, no Brasil, toda uma bancada parlamentar de youtubers extremistas.

Hoje, as big tech reagem timidamente. E somente ao custo de gigantescos boicotes que alguns militantes promovem justamente contra os anunciantes que as sustentam. Tanta demora —e má vontade— ao agir dá sentido à conclusão que Pariser chega ainda em 2011: “Alguns desses problemas são importantes demais para ser deixados nas mãos de entidades privadas que visam ao lucro. E aí que entram os governos“. E olha que o co-fundador da Avaaz.org nem imaginava que a humanidade enfrentaria a maior crise sanitária em um século com três das maiores democracias lideradas por negacionistas, o que resultaria na morte desnecessária de centenas de milhares de pessoas.

Ao dificultar o diálogo entre distintas visões de mundo, os algoritmos criaram empecilhos ao mais simples dos exercícios democráticos. Hoje, apesar do avanço tecnológico, o extremismo se organizou politicamente, os moderados foram atropelados por radicais, a discussão deu vez à gritaria, as minorias estão cada vez mais sufocadas, e a humanidade, ludibriada por todo tipo de desinformação, já não mais consegue conter o avanço de epidemias, coisa que, há pouco tempo, domava com alguma firmeza.

O mundo está inegavelmente pior. E a sociedade já se sacrificou demais aguardando que os responsáveis pela bagunça tomem a iniciativa de reconstruir o que destruíram. A entrada do Estado para arbitrar esse jogo é uma decisão que não mais pode ser postergada. Infelizmente.

Adquira

  • O filtro invisível
    O que a internet está escondendo de você
    por Eli Pariser

A máquina do ódio

Em A máquina do ódio: Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital, Patricia Campos Mello apresenta o que se sabe sobre o “gabinete do ódio“, a estrutura que ajudou Jair Bolsonaro a se eleger, e segue utilizada pelo presidente da República para perseguir adversários. A autora vai além, detalhando não só a apuração jornalística, como também o drama que viveu ao se tornar alvo da máquina de linchamentos virtuais que buscava compreender.

No capítulo mais valioso, a jornalista aproveita a experiência como correspondente internacional para evidenciar que o fenômeno observado no Brasil não é uma exclusividade brasileira, mas de nações em que a internet foi convertida em arma política. Impressiona, contudo, como o trabalho de Campos Mello dialoga involuntariamente com O filtro invisível, livro que Eli Pariser lançou nove anos antes. De forma que vários dos alertas de 2011 se confirmam na obra de 2020.

Diálogo involuntário

Se Pariser observa que, no início dos anos 2010, nascia “um enorme mercado de informações sobre o que fazemos na rede“, Campos Mello verifica que, na eleição brasileira de 2018, uma consultoria oferecia aos contratantes “240 milhões de linhas de celular, cruzamento de dados cadastrais com eleitorais, campanhas segmentadas e dados georreferenciados”. Segundo o americano, seria possível usar a análise de sentimentos para “influenciar gradualmente o debate” político. Como lembrou a brasileira, a Cambridge Analytica segmentava milhões de eleitores como “abertos a novas experiências“, “extrovertidos“, “metódicos“, “empáticos” ou “neuróticos“. Em 2011, o ativista abordou o risco de “manipulação do contexto e do fluxo de informação e de atenção” por parte dos políticos inescrupulosos. A consultoria que auxiliou Donald Trump, como lembra a jornalista, criavacampanhas políticas que exploravam as ansiedades de segmentos da população“.

Pariser alertou que as grandes empresas de tecnologia substituíam editores profissionais por algoritmos carentes de “qualquer senso ético“. Anos depois, Campos Mello ouviu o próprio Steve Bannon celebrar a forma como, na comunicação com eleitores, populistas conseguiam driblar o filtro editorial da imprensa. Para o diretor executivo da campanha vitoriosa do presidente americano, “se não fosse pelo Facebook, Twitter e outras mídias sociais, teria sido cem vezes mais difícil“.

Se Pariser reclama que o modelo de negócios das grandes empresas de tecnologia sufocava a imprensa, Campos Mello lembra que “a primeira lição do manual da combate à imprensa é sufocar a mídia em termos econômicos“. E que linchamentos virtuais são hoje “uma nova forma de censura, terceirizada para exércitos de trolls patrióticos repercutidos por robôs no Twitter, Facebook, Instagram e WhatsApp“.

Segundo Pariser, “o problema político mais sério criado pelas bolhas virtuais é o fato de dificultar cada vez mais a discussão pública“. Campos Mello escreveria anos depois que “marqueteiros entenderam que ‘o populismo é filho do casamento entre a cólera e os algoritmos‘”. Se Pariser se preocupa com o risco de políticos usarem as redes para “propaganda com base nos medos e pontos fracos de cada eleitor“, Campos Mello destaca que “a campanha de Trump não se serviu das mensagens microdirecionadas apenas para empolgar seu eleitorado, mas também para manipular eleitores democratas, fazendo-os desistir de votar“.

Pariser temia a dificuldade que jornalistas e candidatos teriam para verificar fatos difundidos pelo microdirecionamento da publicidade digital. Campos Mello observou, por exemplo, que circularam no Brasil “notícias falsas de que Marina Silva, evangélica, apoiaria um plebiscito sobre o direito ao aborto que autorizaria o procedimento no Brasil — quando o resultado mais provável, segundo as pesquisas, era que a maioria da população votasse pela proibição“.

Agravante brasileiro

Mas Campos Mello aponta um agravante do caso brasileiro, onde a lei eleitoral possui limites próprios: “Comprar de fornecedores serviços digitais que beneficiam candidatos passou a ser um expediente de doar por baixo do pano. Em vez do clássico caixa dois, em que o dinheiro doado não é declarado ao TSE, inaugurava-se a terceirização do caixa dois“.

A brasileira observa que “a propaganda eleitoral havia migrado em massa para o meio digital, mas a legislação continuava analógica“. Ainda em 2011, Pariser antevia que “os sistemas informáticos terão de ser julgados com base em seus efeitos públicos“. E que, “na luta pelo controle da internet, todos estão organizados, menos o povo“.

O filtro invisível” e “A máquina do ódio” são dois livros fundamentais para se compreender a insensatez que, nos últimos anos, tomou de assalto a política de grande parte do mundo. É triste constatar, no entanto, que o segundo não seria tão necessário, nem Patricia precisaria passar pelo inferno que viveu, se as gigantes da tecnologia tivessem se sensibilizado com os alertas do primeiro.

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  • A máquina do ódio
    Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital
    por Patricia Campos Melo

Fontes

Esse texto só pôde ser escrito graças ao trabalho de uma imprensa profissional que apurou as informações referenciadas mais acima, e que aqui embaixo é reverenciada: BR Político, Daily Mail, El País Brasil, Estadão, Folha de S.Paulo, G1, NY Times, O Globo, The Guardian e UOL.

Não existe país decente sem imprensa livre.

Como a internet fragiliza as democracias
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